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Comunicação, expressão e liberdade

Não me lembro de qual foi a ocasião, mas assisti – pela TV – a uma palestra para alunos do Harlem, nos EUA. O palestrante era um professor americano, branco, bem ao estilo professor-nerd-de-filme-americano. Ele falava sobre educação e cultura àqueles jovens. Pelo que entendi, ele é especialista no que hoje é conhecido como “Ebonix”, que é um linguajar usado nos bairros negros de NY, tão peculiar que já é tratado como um dialeto americano. E falava aos jovens: “Eu quero que vocês conversem entre si, obviamente. Quero que falem Ebonix. Mas vocês têm que querer mais. Têm que querer falar também com seus professores que não moram no Harlem ou no Bronx. Têm que querer falar com seus diretores, que, acreditem, não vão tolerar o Ebonix em suas salas, ainda que eles mesmos o falem em casa. Têm que querer falar com os políticos, os comentaristas esportivos, os grandes empresários. Têm que querer falar, por que não, com Shakespeare! Há um mundo inteiro lá fora. E vocês devem querer ser livres para conhecê-lo”. A transcrição é livre, pois nunca mais tive o prazer de ver aquele vídeo. Mas a sua essência está descrita acima. E o que mais fortemente ecoou na minha mente quando terminei de vê-lo foi justamente a frase que finaliza o texto. Liberdade! Este é o cerne da questão. Liberdade! Muito se tem falado sobre Preconceito Linguístico, “certos e errados” na língua falada e até mesmo na língua escrita, nesses últimos dias, depois da publicação de trechos do livro “Por uma Vida Melhor”, de Heloisa Ramos e outros autores. Alguns articulistas, como Reinaldo Azevedo e Flavio Morgenstern, que têm conhecimento de causa, pois ambos estão diretamente ligados ao estudo da Língua, analisaram o sentido técnico do problema e corretamente o combatem. Eu, que não estou nem perto de ser qualificado para este nível de discussão, só posso pensar o assunto do ponto de vista que conheço: o amor que tenho pela língua e, mais especificamente, pela literatura produzida com ela. Mesmo quem não vive das Letras ou trabalha com elas, como eu, é dependente de sua utilização, em maior ou menor grau, para ter sucesso em suas áreas. E, enquanto falamos, prestamos menos atenção às construções normativas da língua. Isso equivale a dizer “Vamo nessa?”quando convidamos alguém a sair de um lugar ou um “Cê tá bonzinho?”, quando cumprimentamos alguém fazendo chacota. Estas aberrações linguísticas, tão comuns em nosso dia-a-dia, é que parecem fazer a língua permanecer viva fora do ambiente da pesquisa ou do ensino da norma culta. Quer dizer então que eu dou razão aos professores Marcos Bagno e Heloísa Ramos quando defendem que este tipo de construção não é incorreta, mas, simplesmente, uma forma diferente de comunicação? De forma nenhuma. Penso que eles estão equivocados não só por chamarem esse tipo de construção de escolha como também de colocar este tipo de discussão em um livro voltado ao ensino médio. Primeiro porque é extremamente perigoso pensar as exceções antes que todas as regras sejam conhecidas a fundo. Como alguém pode sair ileso de uma discussão onde é dito que Newton é muito mais importante que Einstein e que Galileu muito mais que os dois anteriores para a física em particular e para o conhecimento científico em geral, se não se conhece a fundo cada um dos feitos desses cientistas fabulosos? Entramos no esquema Senna x Piquet: muito sentimentalismo e pouca objetividade. Da mesma forma, que vantagem leva um aluno ao ser apresentado à “verdade” que diz que ele não fala errado, mas, sim, sofre de preconceito linguístico quando escolhe falar em seu estilo particular de expressão? Qual o sentido de estudar, então? Qual o sentido de decorar termos técnicos que nunca mais serão usados na prática? “Bóra saí daqui e se acabá numas breja!”. É o tipo de afirmação que se quer libertadora, mas que, no fundo, exclui e aprisiona. Desestimula. Desencoraja o querer conhecer, querer descobrir e entender. E só então, escolher entre gostar ou não da matéria. Além disso, no fundo, uma construção linguística incorreta ao falarmos não é questão de escolha. É questão da mais pura e simples ignorância. Não se escolhe falar ou escrever errado. Somos levados a isso pela nossa ignorância, pelo nosso conhecimento insignificante, imperfeito e descuidado da língua. Inventamos neologismos idiotas porque não lemos o suficiente e nosso vocabulário tem a consistência de uma gelatina deixada fora da geladeira em uma tarde de verão. Somos introduzidos de uma forma antipática à língua e literatura, tomamos aversão a elas – não porque elas sejam de fato intransponíveis, mas porque quem nos ensina também não teve o cuidado de aprender direito para ensinar de uma forma que nos fosse mais agradável. Ou alguém aí acha fácil que uma criança de doze anos se apaixone por Dom Casmurro à primeira vista? Então, meu amigo, se seu palavreado inclui “os livro ilustrado mais interessante tavam emprestado!”, tenha consciência de que você, ao ver pessoas torcerem o nariz para sua escolha, não estará sendo vítima de preconceito linguístico. Você estará sendo vítima da sua própria ignorância. E procure livros com menos figuras e mais textos, da próxima vez. O que devem fazer, portanto, os pesquisadores da língua, da norma culta, da linguística, da gramática, da ortografia, da literatura e demais ciências que compõem a ciência da língua? Encontrar métodos para sair da mesmice. Tornar o ensino de língua portuguesa mais eficaz ao ensinar ao óbvio. Não somente porque a língua seja bela, pela poesia do negócio. Mas para que seus alunos sejam cada vez mais livres. Que eles possam sair da posição de ignorância que se encontram e almejar – quererem almejar – patamares mais altos de cultura e educação formal. E não se conformarem com a condição em que estão agora, ancorados à percepção de que estão corretos e fazendo uma escolha de forma de expressão. Eles estão, na verdade, sendo escolhidos. E assim estarão até o fim, aprisionados nos guetos de ignorância onde foram jogados por aqueles que os deviam tirar de lá: seus professores. O melhor jeito de combater o preconceito, qualquer tipo de preconceito, é o conhecimento, pois é a ignorância que leva ao preconceito, e não o contrário.
Escrito por Alessandro DelArco às 11h40
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Adoção e preconceito

Que motivos pode ter alguém para se tornar uma prostituta, um drogado, um vagabundo ou um ignorante? Maus tratos na infância? Falta de açúcar na adolescência? Escolha pessoal? Não há, convenhamos, uma resposta fácil ou pronta para esta questão. Há infinitos fatores e infinitas possibilidades que podem causar este estrago na vida de alguém. A não ser, é claro, que o indivíduo em questão for filho adotivo de alguém. De posse desta informação, todos os problemas se fundem e a questão fundamental é instantaneamente resolvida: A fulana tornou-se prostituta, drogada, vagabunda e ignorante porque é adotiva. E estamos resolvidos. Eu sei que, a primeira vista, parece reducionismo falar assim. Mas não é, e a dificuldade que estou tendo para redigir este parágrafo é prova disso. Sim, as pessoas pensam que filhos adotivos sempre dão mais trabalho que filhos biológicos. E sim, as pessoas em geral acham que se um filho adotivo não dá certo na vida, é porque ele é, oras bolas, adotado. O meu reducionismo está em achar que a maioria das pessoas é dessas opiniões. O reducionismo da maioria das pessoas está em ter estas opiniões. Confuso, mas nem por isso menos verdadeiro. Vou partir, então, para um exemplo genérico e outro específico e recente. O primeiro: quantas vezes você não ouviu – ou não se referiu – ao filho não consanguíneo de alguém como “filho adotivo”? Às vezes a pessoa nem tem outros filhos, o que torna a informação “adotivo” desnecessária, não servindo nem mesmo para indicar qual dos filhos está sendo citado: “o loiro”, “o feio” ou “o adotivo”. Torna-se, portanto, um termo gratuito, sem sentido e preconceituoso. Principalmente porque boa parte dos pais adotivos são pais de um único filho. Mas por que este termo, posto desta forma, seria preconceituoso? E, a meu ver, tão preconceituoso quanto dizer “negro, se não faz na entrada faz na saída” ou “mulher não sabe dirigir”. O que sucede? Tentarei responder a esta indagação com o outro exemplo recente. Todos devem ter acompanhado, através da imprensa, uma infinidade de textos, fotos e artigos referentes à divulgação do filme “Bruna Surfistinha”. Em vários desses materiais apareciam sentenças como esta, que fala sobre a opção dela pela prostituição: “a garota de classe média que saiu da casa dos pais adotivos, perturbada, para se prostituir”. Sutilmente, a palavra “adotiva” é colocada um pouco antes de “perturbada”, como a indicar que a moça era perturbada porque era adotada. Claro que é preciso uma leitura atenta ou até mesmo exagerada para se chegar a esta conclusão. Já eu acho exagerado como as pessoas se utilizam do termo “adotivo” como se estivessem realmente caracterizando corretamente a pessoa. Pessoas são sujeitas a muitas interferências em sua vida. Ambiente, genética, barulhos, bagulhos, romances, livros, músicas, pessoas. Isso pode construir ou conturbar seu caráter. Colocar juízo em sua cabeça ou privá-la totalmente de superego. Ainda que nascida de uma boa família com pais e mães biológicos, há sempre a possibilidade de um filho não se tornar uma pessoa de caráter, ética e esforçada. Até porque isso é diretamente influenciado pela escolha individual. O sujeito pode escolher ser infeliz, drogado, ignorante, vagabundo e achar que está fazendo um ótimo negócio, que está vivendo a vida plenamente. Fazer o que? Em alguns casos, nem o melhor pai do mundo consertaria um filho que escolhesse esse caminho. Além disso, à exceção do caráter biológico, o processo de tornar-se pai adotivo é exatamente o mesmo de se tornar pai biológico. Se me permitirem os genitores que me leem, talvez ainda mais intenso, pois envolve a construção de um relacionamento que parece dispensável àqueles que sabem que aquela criaturinha é carne de sua carne e sangue do seu sangue, pois pensam que será tudo natural, como é para a mãe. O resultado disso são aquelas famílias onde o pai vê os filhos crescerem sem jamais terem dado banho ou trocado suas fraldas. Decidir-se sobre adoção tem o mesmo peso de decidir-se em aumentar a família de forma biológica. O pai que quer adotar quer sê-lo em plenitude e tem consciência dos deveres e prazeres. É essa a única diferença entre o paizão biológico e o paizão adotivo. Não estou minimizando o tamanho da responsabilidade ou dos problemas que permeiam a escolha pela adoção. Pelo contrário, tenho ciência disso e sei o quanto a criança dependerá de meu carinho, afeto e pulso firme para não ser afetado pelo conturbado momento do início de sua vida. Se ele foi abandonado, não poderá carregar consigo os traumas relacionados a isso? E o que fazer com a montanha de questionamentos sobre o período da vida em que ele ainda não estava sob seu cuidado? É assustador pensar nisso. Mas será isso mais forte que todo o amor e carinho que você está disposto a oferecer à criança? Será isso suficiente? Impossível não pensar nisso. O tempo todo. Mas será que um pai biológico pensa menos nestes aspectos? Será que um pai – ou mãe – consegue ir dormir tendo a certeza que está fazendo tudo o que é melhor para o seu filho? Por acreditar nisso é que vejo com extrema desconfiança os fenômenos “adocionais” que estão em moda hoje em dia, principalmente depois do fenômeno Angelina Jolie. Tornou-se comum aparecer, na imprensa, principalmente a marrom, coisas como “ter dois filhos e adotar mais um”, como se estivesse em uma pastelaria escolhendo dois de queijo e um de carne. Fico me perguntando, afinal, o que poderia mover essa escolha? Ter filhos para amá-los incondicionalmente e de uma forma tão intensa que é impossível descrever? Ou aparecer para a população consumidora de revistas de “celebridades e famosos” como uma pessoa de bom coração, que faz filantropia? Eles sabem onde estão se metendo? Sabem que adoção não é caridade, filantropia ou barraquinha de quermesse? Antes, sabem, afinal, porque querem ter filhos? Quaisquer filhos? No filme “Um Sonho Possível”, com Sandra Bullock, a personagem, quando interpelada sobre o bem que fez para a criança, rebate dizendo que isso não é nada perto do que a criança fez na vida dela. A atriz, inclusive, se tornou mãe por adoção e também é vítima dos mesmos preconceitos, estando sujeita a manchetes como esta: “Sandra Bullock mostra ao mundo seu bebê adotado” (ao senhor jornalista que escreveu esta preciosidade: porque não enfia esta manchete em seu rabo?). Retornando à personagem de Sandra Bullock: é assim mesmo que se sente a família adotiva, um sentimento tão egoísta como de qualquer família biológica que se preze. A criança os transforma igualmente; tão intensamente e definitivamente que não é possível lembrar da vida antes dos filhos. Sentimento egoísta, com certeza. É “meu filho” para cá, “meu bebê” pra lá e assim por diante. Nada de caridade. Nada de assistencialismo. Muito menos de filantropia. Apenas amor. Puro, singelo e, como todo amor, egoísta.
Escrito por Alessandro DelArco às 16h11
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O Reinado de Lula
“Eu quebrei um tabu, porque todo mundo dizia que era muito difícil governar o Brasil, que era difícil, que era complicado. Eu não achei nada complicado, achei até gostoso demais.” É claro que Lula achou esse período todo gostoso. Deve ter sido uma delícia mesmo. Não teve que tomar nenhuma decisão difícil, não teve que fazer nada que desgostasse o povão. Como aprendíamos antes na escola, há monarquias onde o rei reina, mas não governa. Como a família real britânica, hoje. Quem comanda o país são os ministros, o primeiro ministro e o congresso, ou câmara dos notáveis. Isso acabou acontecendo no Brasil, nos últimos oito anos. Lula não governou, ele reinou. Lula foi a cara do governo, mas não o próprio. Usou e abusou de sua fabulosa capacidade de se comunicar com o povo, de usar a imprensa e a mídia em geral a seu favor e deixou o trabalho árduo para os outros. Deixou a economia nas mãos do Banco Central e tratou de viajar, levando sua sucessora debaixo das asas. Ele aparecia para dar as notícias boas e deixava que seus subordinados dessem as ruins. Governar o Brasil é difícil sim. Os cabelos brancos do Malan e do Fernando Henrique Cardoso estão aí para provar. Já reinar deve ser muito mais fácil, pois o príncipe Charles até hoje exibe um olhar meio garotão. Lula reinou. Talvez tenha sido esta sua maior realização.
Escrito por Alessandro DelArco às 17h11
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Reiniciando de novo o que não foi iniciado
Todo mundo, sobretudo na adolescência, tem o direito de errar. A adolescência e a segunda juventude, até os vinte e três, vinte e quatro anos são repletas de tentativas e, com elas, vêm os erros e acertos. É absolutamente compreensível, portanto, que se fale bobagem, ou que se faça muita bobagem nessa época. É comum também que os jovens sejam bastante preconceituosos, mas, paradoxalmente, só enxerguem esta característica nas outras pessoas, sobretudo nos mais velhos, ainda que os “velhotes” não tenham atingido nem a casa dos quarenta anos. O grande cartunista Angeli disse uma vez, em uma de suas tiras, que jovem acha que o mundo foi criado no dia em que ele nasceu. Faz sentido. Afinal, o adolescente enxerga o mundo a partir de sua própria perspectiva e experiências pessoais. O jovem tem o caráter em formação. Boa parte do que ele experimentar – ou se recusar a – comporá o adulto definitivo em que ele se transformará em muito pouco tempo. Gosto musical, cultura, preconceitos e alinhamentos, todos esses traços são largamente testados nessa idade. Claro que o mundo que o cerca tem uma grande influência, pois as músicas que ele ouve, os livros que lê e as idéias que defende serão aquelas com as quais teve contato. Isso costuma, na maioria dos casos, dar bons resultados. Claro que todo jovem tem um tracinho de egocentrismo. De alguma forma, sob algum aspecto, ele irá se imaginar especial, original e radical, como se isso pudesse iluminar o mundo. Essa pequena “perversão” é muito saudável e absolutamente necessária. Mas o que quero eu com este texto, então? Discutir o reverso da moeda, aquelas perversões maiores, em que o jovem atropela seus próprios passos e, com dezoito ou dezenove anos, passa a se imaginar um produto acabado, cheio de idéias originais e totalmente auto-suficientes. É quando aparecem os péssimos atores que se acham verdadeiros Marlon Brandos, cantores medíocres que se vêem o novo Mick Jagger e bandas vazias que se pretendem inovadoras e radicais como foram Sex Pistols e The Doors, para citar apenas dois exemplos. Tornam-se poços de arrogância e empáfia, desprezando aqueles que vieram antes deles (e que tornaram possível sua existência), cultivando péssimos heróis e enxergando toda crítica que se faz contra eles como mero despeito ou, no mínimo, preconceito. É assim que aparecem aberrações artísticas como o Fiuk, o Justin Bieber e a banda Restart. Confesso que ouvi muito pouco da banda Restart. Acho até que eles são até cheios de boa vontade, embora o conteúdo musical seja, digamos, medíocre. Mas, pelo que vi nesta entrevista, eles se levam a sério demais. E se acham demais: originais demais, geniais demais, radicais demais e vanguardistas demais. Nela, eles chamam aqueles que, quando tinham suas idades, ouviam Led Zeppelin, Bob Dylan, Rolling Stones e centenas de outros músicos e bandas que criaram e consolidaram o rock, de conservadores. E porque esse público se recusa a deixar seu coração ser invadido pelas letras e música de sua banda, é preconceituoso. Na verdade, no decorrer da conversa fica a impressão que a rapaziada não faz a menor idéia da definição de preconceito ou conservadorismo, pois cita Michael Jackson e Guns’n Roses em seus exemplos – positivos – de criatividade, vanguardismo e “serviços prestados” ao rock ou à música internacional em geral. Cita Axl Rose como exemplo de contestação porque ia a seus shows de shortinho agarradinho. E se você não gostava disso – por, de repente, achar que isso já era brega naquela época – então você é preconceituoso. É claro que você é preconceituoso! Você gosta de Beatles e nem percebe que há um monte de músicas deles que têm letras vazias, olhe só. Como, sei lá, “Love me do”, “Can’t Buy me Love”. E você, velho preconceituoso, acha o máximo. Pior, você é tão preconceituoso que não consegue nem mesmo gostar dos pioneiros desse verdadeiro movimento musical chamado de Happy Rock – seja lá o que for isso. Você não consegue achar os caras criativos porque eles vestem calças coloridas – como aquelas que os Beatles usaram no “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band” – mas que, por algum motivo, eles querem originais hoje em dia. Ou os cabelos arrepiados, cortados de forma irregular ou coloridos, que faziam o maior sucesso entre os punks lá nos anos setenta. Ah, talvez o original seja isso, a mistura de diversos elementos do passado culminando em “algo novo”. Sei. É inútil dizer que Beatles são muito maiores que as letras de “I Wanna Hold Your Hand”, por exemplo, uma das mais famosas músicas da banda de rock (ou pop, como queiram) mais popular de todos os tempos. Não é a letra nem a melodia, meus caros, é a música, o contexto todo. Eu lembro até de um filme onde um dos personagens filosofa com a idéia do “tudo o que você precisa é de uma mão para segurar”. Mas isso são conjecturas, é o ponto de vista do fã, que tem sim que ser levado em consideração, mas não é o fato. Beatles foram originais, inauguraram uma era. Levaram junto uma geração de bandas e músicos, algumas delas nem sobreviveram ao tempo, pois eram apenas cópias mal feitas do original. Além disso, eles não cresceram com o público, mas apesar dele, porque compuseram suas melhores músicas em uma fase que qualquer coisa que fizessem venderia horrores. E não se esqueçam que, quando os Beatles começaram, eles não eram muito mais velhos que os músicos da banda Restart. E se falamos de contestação, não creio que o rock tenha se pensado contestador ao nascer, diga-se. Tornou-se assim a partir da década de sessenta, com a Guerra do Vietnã, a Primavera de Praga, os hippies e diversos outros movimentos que pretendiam mudar o mundo pela paz, amor e música. De certa forma conseguiram, pois tornaram possível uma geração de músicos absurdamente talentosos que não teriam tido voz e vez uma década antes. A guitarra de Jimi Hendrix jamais teria existido. Nem os vocais estrambólicos de Janis Joplin. Neste rastro surgem o rock pesado, o punk, o dark, e assim por diante. Por algum motivo, aqueles que acompanharam essa movimentação musical são vistos por essa turma do Restart como preconceituosos. O exemplo do Axl Rose foi o melhor exemplo do que eles entendem como “progresso musical”. Rapaziada, Axl Rose foi para o Rock como um cantor de barzinho: todo mundo nota, mas se não estivesse lá não faria muita diferença. E ele some das suas lembranças assim que você deixa o local. os verdadeiros roqueiros da Época, como o Nirvana ou o Red Hot Chili Peppers, criaram um estilo original e estamparam uma nova era no rock que ainda é moderna até hoje. O legado de Guns é ter dado fama ao fabuloso guitarrista Slash. Nada mais. E, pensando bem, a galera que falava mal das calças do Axl não fala das calças apertadas dos integrantes do Restart porque simplesmente não sabem que eles existem. Temos vivido, há tempos, uma era de mediocridade na música Pop, seja aqui ou em qualquer lugar do mundo. A originalidade, a ousadia e a qualidade parecem ser artigos esgotados. No Brasil, creio que desde Nação Zumbi não temos nada novo. Lá fora, nem faço idéia. Mas isso não parece ser suficiente. Estamos prestes a entrar em uma nova era. A era dos medíocres geniais, da banalidade arrogante. Uma era em que o ruim pode parecer bom e o péssimo é até passável. O nivelamento por baixo, mas bota baixo nisso, do rock e da música pop. A mesma pieguice que atingiu a música sertaneja, o samba e o forró está se aninhando no rock. E ai de você se achar isso indigesto. Será porque você é preconceituoso, ultrapassado, conservador e sabe-se lá mais o que... I’ve got blisters on my fingers!!!!
Escrito por Alessandro DelArco às 09h22
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Monteiro Lobato por João Coutinho
Fazia tempo que eu não usava este expediente, de colocar um texto excepcional e comentá-lo em seguida. Tinha desistido desse formato porque o acho meio pedante e cafona. Mas é inevitável usá-lo, sobretudo quando alguém consegue exprimir com muita propriedade tudo aquilo que tentei e não consegui. Segue o texto: 29/11/2010 - 00h01 O caso Monteiro Lobato A minha infância foi pobre. Televisivamente falando. Não poderia ser de outra forma. Nasci depois da "Revolução dos Cravos", que enterrou a ditadura portuguesa em 1974. A televisão lusa dava os primeiros passos em liberdade e a programação era, digamos, incipiente. Mas havia excepções. Uma delas era "O Sítio do Picapau Amarelo", uma produção da TV Globo baseada na obra de Monteiro Lobato (1882 - 1948). Lembro-me das aventuras de Pedrinho e Narizinho com a mesma gratidão com que me lembro das aventuras de Lucy ou Edward nas crónicas de Nárnia de C.S. Lewis, que li na mesma idade, teria uns 7 ou 8 anos. Sem falar da boneca Emília, de Dona Benta e da Tia Nastácia. Puro encantamento. Por causa de Monteiro Lobato, conheci melhor o folclore brasileiro; e, claro, a própria literatura brasileira. Depois da série, li Monteiro Lobato "lui même". E, por causa do autor, fui entrando no cânone. Primeiro, "O Meu Pé de Laranja Lima", de José Mauro de Vasconcelos, desde logo porque havia um "portuga" na trama. O livro fez um sucesso em Portugal digno de J.K. Rowling. E depois passei a dietas mais pesadas, com Lima Barreto, Nelson Rodrigues. E o notabilíssimo Rubem Fonseca. O racismo de Monteiro Lobato incomodou-me? Nem pensei nisso. Não penso nisso agora. O que não significa que Monteiro Lobato não o fosse: as suas referências a "pretos" podem ser desconfortáveis para uma audiência moderna. Mas se as audiências modernas apenas lessem o que se ajusta ao cânone politicamente correto do momento, que obras ficariam nas nossas bibliotecas? Precisamente. Poucas. Quase nenhumas. Todas as épocas têm as suas fogueiras. Por isso pasmo com a decisão do Conselho Nacional de Educação de sinalizar com pânico radioativo e instintos censórios a obra "Caçadas de Pedrinho", publicada por Monteiro Lobato em 1933. O caso já chegou à imprensa portuguesa, que tem dedicado alguma atenção ao assunto. Deveria dedicar mais porque estamos na presença de um exemplo clássico de ignorância cultural. E, ironicamente, de preconceito ideológico. Segundo leio, o livro "Caçadas de Pedrinho" tem referências que não são agradáveis à população negra. Uma princesa, por exemplo, aconselha Emília a não beber café. Para não ficar "morena". E a Tia Nastácia, que cozinhava os melhores petiscos da minha infância, é referida como "pobre preta". Isso, para o Conselho de Educação, é intolerável. A função do ensino, para o nobre órgão, é inculcar os valores certos na cabeça das crianças, afastando qualquer ofensa às minorias. Sou capaz de entender a generosidade do Conselho de Educação. Mas se a função do ensino é afastar do currículo tudo aquilo que ofende a sensibilidade moderna, repito, não fica nada para mostrar. Apagar o passado que nos interpela com seu rol de ofensas e preconceitos é apagar Platão ou Aristóteles, dois conhecidos esclavagistas com intoleráveis tendências misóginas. É apagar os versos de Dante na sua "Comédia" com passagens islamofóbicas. É apagar Voltaire pelas mesmas razões, a começar pela sua peça "Maomé". É apagar Mark Twain pelos mesmos motivos que nos levam a censurar Monteiro Lobato. É não permitir que Shakespeare nos contamine com seu esporádico antisemitismo. E, por falar em antisemitismo, é jogar no lixo a poesia de T.S. Eliot, o maior de todos os modernistas. E etc. etc. etc. A lista não tem fim. Avaliar a cultura passada com as lentes ideológicas do nosso tempo não é apenas um grosseiro erro de anacronismo. É vandalizar esse passado pela destruição do mundo que ele expressa; é, no limite, uma privação cultural. E esse crime não é apenas um crime que cometemos sobre o passado. É também uma porta que abrimos para crimes futuros: para que as gerações vindouras, dominadas por seus próprios valores ou preconceitos, possam usar a guilhotina sobre os nossos valores ou preconceitos; sobre a nossa voz singular e presente; sobre nossos vícios e virtudes; sobre nós. Uma inquisição permanente que não tem descanso. O caso Monteiro Lobato é mais um exemplo de como o objetivo do pensamento politicamente correto não é "corrigir" o pensamento politicamente incorreto. É criar um mundo de silêncio, transformando o passado num imenso cemitério. http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/837525-o-caso-monteiro-lobato.shtml Minhas Palavras Engraçado que seja necessário um português para defender com tanta autoridade uma obra brasileira. Não é preconceito não. Só acho que a obrigação não é deles, mas nossa. E nós, brasileiros, estamos nos deixando afogar pela estupidez politicamente correta com muita facilidade. E de forma oficial. Este tipo de patrulha é recheada de boas intenções, eu bem sei. Mas até o partido nazista tinha boas intenções quando foi fundado. Para que efetivamente os problemas possam vir a tona, é preciso que eles sejam conhecidos. E para que eles sejam conhecidos, é preciso que a história seja reescrita a partir do passado e não apesar dele. Reconhecer uma sociedade preconceituosa na alma do maior escritor infantil do Brasil não denigre sua imagem, tampouco sua obra. Ao contrário, nos faz mais conhecedores de nosso próprio passado e nos deixa prontos para construir nosso futuro. Em tempo: li um artigo (o qual não consegui resgatar, infelizmente) que dizia que a iniciativa do MEC não foi a de censurar o livro, mas sim que ele fosse editado de forma que contivesse uma nota que indicasse o conteúdo preconceituoso do autor. Menos mal, ainda que esse tipo de coisa me dê a impressão que o MEC tem plena certeza de que todo estudante brasileiro é um poço de ignorância e estupidez, pois não consegue perceber um conteúdo preconceituoso nem que esbarre nele. De novo, as boas intenções...
Escrito por Alessandro DelArco às 17h23
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De volta aos livros
Durante os últimos tempos, tenho presenciado – de novo – uma discussão interminável entre novas tecnologias x tecnologias antigas. Já vi várias dessas e até participei de algumas. Parei, porque percebi que não fazia o menor sentido vagar por essas conjecturas. Pois qualquer tentativa de pautar uma ou outra tecnologia como essencial, fundamental ou definitiva termina sempre em descrédito. Tem sido assim desde o advento do microcomputador. Dessa vez, entretanto, vou contrariar meus princípios e entrar novamente em uma dessas discussões simplesmente porque o assunto, ou seu objeto, me interessa muito. Trata-se da discussão acerca da sobrevivência do livro “em papel”ou tradicional e sua substituição pelo livro digital. É, eu sei, essa questão está longe de chegar à essência do objeto discutido. Mas, devido à importância do conteúdo, merece atenção. Lembro-me quando o CD substituiu o vinil. Foi uma verdadeira revolução. Ninguém agüentava mais os bolachões que riscavam a toa e faziam sons estranhos quando tocados. Eram difíceis de guardar, e derretiam ou quebravam com facilidade. O CD surgiu com a promessa – jamais cumprida - de que nunca riscaria. Guardaria suas músicas com uma qualidade superior, sem ruídos e em um espaço reduzido de armazenamento. Como todo mundo já estava de saco cheio do vinil, o CD ganhou espaço rapidamente e derrubou o pretão. Por outro lado, podemos pensar em duas revoluções que não se confirmaram. A primeira foi a do vídeo-cassete, que deveria ter derrubado o cinema. E também a revolução da TV que mataria o rádio. No caso do videocassete, quanto papel não foi gasto discutindo-se o dia e a hora em que o cinema iria ser sepultado definitivamente. No fim, as previsões apocalípticas não se cumpriram e tudo o que se discutiu com tanta intensidade se revelou completamente inútil. Tão inútil que o videocassete acabou antes do cinema. Ou dirá você que ainda usa o seu? Se é que ainda há um em sua casa. O cinema não morreu, mas teve que se reinventar, criando os campeões de bilheteria com pouco conteúdo e muita ação. O mesmo aconteceu com o rádio, que enxugou suas estruturas e passou a servir onde a TV não servia, ou seja, na mobilidade das pessoas, em seus automóveis, na difusão musical e no jornalismo de última hora. Neste quesito, a internet foi um rival muito maior do rádio do que a TV jamais conseguiu ser. E já que falamos de internet e música, vamos aproveitar o exemplo. A internet trouxe, ao mundo da música profissional, um grande problema. A maior parte das pessoas prefere baixar suas músicas na internet a comprar os CDs dos seus artistas preferidos. Sem entrar no mérito da questão do certo ou errado, isso mudou radicalmente o relacionamento entre os artistas e seus fãs. Se o fã não compra o disco, do que vive o músico? Obviamente, dos shows que realiza, que não são poucos e sempre foram uma de suas maiores fontes de renda. E com o livro digital, como fazer para não ferir o direito autoral do autor? Há um problema grande em questão, pois o escritor não pode viver de “shows”, de aparições públicas, etc. Ele precisa que seu livro seja comprado. É esta a sua principal fonte de renda. Como as tecnologias de livro eletrônico poderão proteger os direitos autorais? Bloquear conteúdo, com formatos proprietários, como faz a Amazon? Essa solução não será parcial, uma vez que os hackers vivem de quebrar formatos proprietários e transformá-los em formatos abertos? E bloquear a mídia, como tentaram fazer tempos atrás com o CD? A Marisa Monte lançou um CD que impedia que as músicas fossem convertidas para mp3 sem que uma licença para isso fosse paga. O CD vendeu tanto quanto ela desejava? E ela conseguiu preservar seus direitos autorais dessa forma (solução que me parece, inclusive, um tanto antipática)? Além disso, essa solução pode acabar decretando a morte da mídia. Lembrem-se do Betamax, da fita digital DAT, do LaserDisc, que eram mídias de qualidade impressionante, mas foram sufocadas justamente por não serem formatos abertos – quem quisesse usar teria que pagar direitos de OEM para a empresa que o inventou. Outro problema que pode ser considerado grave: a sobrevida do formato do livro eletrônico. Se analisarmos bem, desde guttemberg o livro tem um formato quase irretocável. Caíram as costuras das páginas, diminuíram as capas duras, desapareceram as bordas em ouro. Mas o formato em si pouco mudou. Um livro de 1720 é manuseável da mesma forma que um livro atual. Já os formatos eletrônicos são bastante voláteis. Arquivos e mídias se sucedem a uma velocidade incrível. É bom lembrar que a pouco mais de dez anos todos os computadores pessoais tinham, além do driver de “disquetinho”, o driver do “disquetão”. Hoje, nem um nem o outro são fornecidos com um micro novo. E pouca gente ainda se aventura a guardar dados naquelas mídias. Depois deles vieram os CD de dados, os DVDs e agora temos as memórias de massa, comuns nos “pendrives”. Sem contar os formatos dos arquivos. Hoje estão na moda os formatos “pdf”, referentes ao Acrobat. Quem pode garantir que este formato estará em uso daqui a 50 anos? E daqui a 50 anos, nos novos leitores de livros eletrônicos serão capazes de abrir livros “*.pdf”? esta pergunta não é trivial. Ou o Word consegue abrir arquivos “*.chi” ou similares? Arquivos com esta extensão eram extremamente comuns até final dos anos 90 e praticamente inexistem hoje. Imaginem isso aplicado a um livro? Um bom livro é feito para durar séculos. E não há formato eletrônico que tenha tamanha expectativa de vida. E como será o livro eletrônico ideal? Como será o papel eletrônico ideal? Quanto tempo até que ele esteja satisfatoriamente desenvolvido e totalmente adaptado às necessidades dos leitores (os leitores pessoas, não as bugigangas)? E quando ele existir, os livros de hoje serão adequados ou compatíveis com os modelos do futuro? E, por fim, há outra consideração a se fazer: o consumidor topa a mudança? Ou ficará o formato restrito aos aficcionados por tecnologia, aqueles que trocam de celular a cada 2 meses e tem mais prazer em serem os primeiros a comprar a bugiganga do que em utilizá-la? E, no fim, haverá MESMO uma substituição geral e irrestrita dos livros em papel para os livros eletrônicos? Muito mais perguntas do que respostas e nenhuma resposta pronta para essas questões. Muito menos resposta fácil. Há pouca substância para se fazer qualquer tipo de previsão sobre o futuro do livro, seja de curto ou longo prazo. Quanto ao desaparecimento do livro em papel eu sou particularmente cético e só me convencerei quando a última biblioteca for destituída de seus volumes para dar lugar a uma pequena seção de livros eletrônicos. E no fim, acho que em toda essa discussão a essência do assunto não foi tocada. Não importa se os livros são feitos em papel vegetal, em papel jornal, em papel eletrônico ou com folhas de bananeira. O que interessa é que eles sejam lidos. E que mais e mais pessoas tenham acesso a eles e aprendam a gostar de ler. Ler é o importante. O resto dessa discussão é só o meio de transferência.
Escrito por Alessandro DelArco às 15h54
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A decadencia de uma mente brilhante
O texto abaixo segue como desabafo contra um dos religiosos que mais respeitei em minha adolescência. Foi escrito após Frei Betto escrever um artigo de opinião defendendo a face católica de Dilma. Ele pode defender quem ele quiser. Só não pode, já que está revestido de seu ministério sacerdotal, mentir, distorcer fatos e o evangelho para conjurar a defesa. ------------------------------------------------- Já gostei muito de Frei Betto. Em minha adolescência eu lia o que ele escrevia com avidez, entendendo sua faceta socialista como a verdadeira face do cristianismo na terra. Ele e Frei Leonardo Boff eram, em minha opinião, os grandes teólogos da libertação no Brasil. Ele falava do Cristo ressuscitado e não do Cristo crucificado, que adorávamos na sexta-feira da paixão. Devíamos sempre ter em mente o primeiro, o Cristo que venceu a morte, para que pudéssemos ajudar àqueles que ainda hoje vivem em situação de crucificação pelas injustiças da vida. Era tudo o que eu e minha alma adolescente e revolucionária queríamos ouvir. Destruir o Sistema opressor e instaurar uma nova Ordem mais harmônica, mais justa e mais fraterna. Nem que fosse pelas armas. Na minha adolescência, os ecos dos movimentos de Resistência contra a ditadura militar no Brasil ainda eram ouvidos. Professores contavam histórias sobre colegas desaparecidos nas faculdades. Pais de amigos e nossos pais falavam do medo e da vergonha que sentiam diante dos dias de chumbo que atravessaram nos anos 70. E frei Betto dava o respaldo teológico que eu precisava pra saber que Deus estava do lado daqueles que rejeitavam a opressão e lutavam contra os ditadores. Diferentemente dele, entretanto, eu cresci, aprendi e amadureci. Passei a ver os antigos heróis exaltados por ele, como Fidel Castro, exatamente como eles são: facínoras de esquerda que substituíram os facínoras de direita que os precederam na tarefa de oprimir, humilhar e destruir a alma e os corpos de seus subordinados. É só vermos o campo de concentração russo, o Gulag, as “reconstruções históricas” promovidas por Stalin, limpando seus inimigos de registros históricos e documentos oficiais. Ou então os fuzilamentos promovidos na Ilha de Cuba contra os inimigos do regime. Já é ruim o bastante ver um religioso, um teólogo outrora respeitado, usar as escrituras para justificar mentiras e corrupção. Usar o evangelho para dizer que participar da santa liturgia é menos importante “colocar comida na boca dos pobres” – pelo jeito, não importam nem os meios, nem os objetivos de se fazer isso. O Frei se esqueceu de dizer que essa comida está sendo posta na mesa deles com o meu dinheiro. E também não é caridade, uma vez que não é descompromissada e de coração. É dinheiro de impostos. E não é novidade, pois o governo anterior já fazia essa manobra populista. Ele justifica um governo cujo líder fez conchavos com Sarney e Collor (antigos inimigos do povo, segundo a cartilha de esquerda), grandes coronéis do pior tipo de direita que existe no Brasil, para poder se perpetuar no poder. Sinto vergonha em saber que esse frei comunga da mesma fé que eu. A mentira como arma não era coisa da Direita? Então por que ele chama de católica uma mulher que se embanana até com o sinal da cruz durante a missa? Ela nunca disse nada ou nada fez contrário às escrituras? Não sabia que a mentira havia sido proclamada santa nos evangelhos. E não estou repreendendo a Dilma de vinte e poucos anos, a marxista apaixonada que pegou em armas. Temos o direito de defender aquilo que acreditamos quando estamos sob opressão, como era o caso. Não chamo a luta armada de terrorismo porque realmente não entendo assim. E não imagino os motivos que tornariam a Dilma religiosa mais apta ao poder. Norteamento religioso não torna ninguém melhor administrador. E o fato de ser atéia não a tornaria, por conceito, menos ética. Mas ela deve ser fiel ao menos à sua posição. E o que ela fez e falou na fase adulta tem que ser levado em consideração. Frei Betto disse que ser bispo não torna ninguém dono da verdade. Ele tem razão. Os bispos que se pronunciaram sobre a candidata o fizeram baseado nas próprias palavras dela. Não se trata de difamação, pois o comentário "cristão" está filmado e registrado por diversos meios de comunicação e está disponível a quem interessar possa na internet. Frei Betto tem razão ao dizer que os bispos não são donos da verdade. O episcopado também não é garantia de sabedoria. Logo, bispos também podem falar bobagens sobre assuntos que acham que conhecem a fundo, mas tem apenas uma vaga noção. Mas não foi este o caso. Pelo jeito, ser frei dominicano e teólogo da libertação, infelizmente, também não torna ninguém mais inteligente. Nem mais sábio. Ou mais cristão. Infelizmente Veja a íntegra do texto de Frei Betto aqui. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2010201008.htm
Escrito por Alessandro DelArco às 16h37
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Música Universitária
Primeiro, foi o “Forró Universitário”, ainda nos anos 90. Não dei muita bola, porque, afinal, forró não estava mesmo em meu repertório e ninguém ousaria tentar diminuir a importancia de Dominguinhos e Luis Gonzaga nesse ritmo. Depois, já nos anos 2000, apareceu outra estrovenga chamada de “Sertanejo Universitário”. Ainda hoje, muito embora meu sogro tenha se esforçado muito em uma viagem que fizemos entre Rio Preto e São Paulo, quanto ele tocou um CD da dupla Victor e Leo vezes seguidas (e quase me levando à demência), eu sinceramente não entendi bem o que significa isso. Para falar a verdade, não entendo o tal do “Forró Universitário” também. Ele é universitário por que é produzido por estudantes de universidade? Alcançaram fama tocando nos festivais universitários? São contumazmente apreciados pelos estudantes de nível superior? Tive uma pista sobre o assunto em um outdoor de uma dessas duplas: “Direto dos corredores das universidades para o Brasil”. Ajuda, mas não explica. Ouvindo as músicas desse novo “movimento musical” auto-declarado “universitário” nós temos a impressão de que estilos como aqueles poderiam ter nascido em qualquer lugar do mundo, mas nunca em um ambiente universitário. A não ser que algo esteja realmente errado na aculturação dos estudantes de ensino superior brasileiros e as universidades deixaram de ser um ambiente de fomentação e formação de pensamentos, ideologias, crítica e visão transformada de mundo. Isso, afinal, é o que remonta o termo “universidade”. E tanto isso é importante que o movimento parece valer-se dos corredores das universidades para ganhar alguma credibilidade. Não me lembro de muitos músicos importantes que tenham surgido nas universidades. De cabeça, sei que o João Bosco foi um deles. Chico Buarque também. Gil, Caetano, Geraldo Azevedo, Raul Seixas, Zé Ramalho, Milton Nascimento... não consta que esses caras tenham surgido nos corredores das universidades. Mas, ao contrário do que acontece hoje, eles repercutiam nas salas de aula. Suas músicas eram cantadas e tocadas em festas de república, saraus, gremios estudantis e em qualquer evento que agrupasse dois ou mais barbudos universitários. Não duvido, entretanto, que esta seja a nova onda universitária. Essa música engomadinha, redondinha, com refrões grudentos e letras lustradas podem muito bem ser um sintoma do atual nível cultural daqueles que ingressam em uma Universidade, bem como de sua visão de mundo e de suas expectativas com relação ao futuro. E também do tipo de universidade que aparece por aí, cada dia uma nova. Haja aproveitamento acadêmico para suprir a grade docente dessas escolas todas. E aí aparece, para completar o quadro, o estudante universitário que está lá pelo diploma, pra arrumar um emprego que “ganhe mais”. E que se dane o pensamento crítico, que isso é coisa pra quem já faturou o seu e tem tempo livre demais. Dá um medo...
Escrito por Alessandro DelArco às 13h30
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Testes Burros de Raciocínio
Volta e meia a gente se depara com historinhas como esta que vai abaixo: “um sujeito estava vindo de carro, em uma noite de chuva, e vê, em um ponto de ônibus, um médico de emergências, uma senhora doente e o amor da vida dele. Você, no lugar dele, para quem daria carona, para o médico, para a senhora ou para a amada?” Aí, enquanto você faz uma análise contextual de cada possibilidade, percebe, ao final do texto, que a resposta certa não estava entre as opções: “o certo seria dar o carro ao médico para que ele levasse a senhora doente ao hospital e ficasse no ponto de ônibus com a amada.” Frustração, vergonha. “como é que eu não pensei nisso antes?”, você pensa. E o texto ainda completa, chamando você de limitado, sem perspectivas além das apresentadas e também sem criatividade para enfrentar a vida. Sujeitinho medíocre que você é. Hoje mesmo recebi uma mensagem semelhante que nos pedia para escolher entre uma colher, um copo ou um balde para esvaziar uma banheira. Resposta correta: tirar a tampa do ralo. Ah, você não tinha pensado nisso? Burro pra caramba, você! Como diria sabiamente o Neguinho, personagem do livro Feliz Ano Velho: “Calma, não esquente a cabeça senão caspa vira mandiopã”. O que me incomoda neste tipo de “teste de raciocínio” não são as perguntas, alternativas ou a própria resposta final cheia de “pertinência e engajamento”, mas a pretensão de serem verdadeiros testes de raciocínio. Um ponto crucial para um teste desse tipo é que ele faça pensar. Bem, parece pouco elucidativo falar isso, mas é a verdade. Para fazer alguém pensar, é preciso que haja, antes de alternativas de respostas, subsídios para raciocínio no enunciado. Assim, perguntas capciosas como estas são nada mais que prova de ignorância para quem as propôs, pois fecham a questão em torno de algumas poucas questões básicas e limitam a criatividade de quem está resolvendo propondo respostas pré-definidas que não são, na realidade, respostas adequadas ao problema. Lembro-me de ter visto, no antigo seriado “Anos Incríveis”, um professor de matemática afirmando que todo problema encerra sua própria solução. Em geral, isso é plena verdade. E em um problema de lógica ou raciocínio, isso é mais ainda. Afinal, o problema quer analisar principalmente a capacidade de leitura e interpretação do enunciado e, a partir daí, deixar que o leitor chegue a alguma solução. É comum inclusive, que estes problemas possam ter várias soluçoes, dependendo das análises que se faz. Sei que é difícil conviver com isso, pois fomos condicionados a problemas com uma única solução nas aulas de matemática, física e química na escola. É a maldição da preparação para o vestibular. Por isso, repudio o teste burro de raciocínio. Eles são tão inossos quanto um rodízio de chuchu, induzem o leitor ao erro e criam aquela sensação de que a ciência em geral e a matemática em especial não são interessantes. E longa vida àqueles que não responderam conforme as “respostas corretas” dos enunciados, já que, se o tivessem feito, estariam errando feio pois contrariariam o enunciado. Entenderam? Não? Para falar a verdade, nem eu. Mas vou finalizar deixando um VERDADEIRO teste de raciocínio. E não requer prática, tampouco habilidade para ser resolvida: “você é contratado para encher a superfície de um lago com folhas. O seu cliente garante que a quantidade de folhas é suficiente para o serviço e a geometria das folhas permite que o lago seja forrado tranquilamente. O prazo que você tem para o serviço é de 30 dias. No primeiro dia você coloca uma folha. No segundo, duas folhas. No terceiro, quatro folhas. E assim por diante. Pergunta-se: quantos dias você levaria para encher a metade do lago com folhas?”
Escrito por Alessandro DelArco às 13h33
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Abaixo a Reconstrução Nacional!
Reconstrução. Renovação. Sempre quando vejo estas expressões aliadas a conceitos ou ideologias políticas no Brasil, sinto um medo muito grande. E uma angústia fora do comum. Reconstruir significa retomar aquilo que existia antes de uma tragédia destrui-lo. Pode-se dizer que reconstruíram a Alemanha após a segunda Guerra, com alguma ressalva. Afinal, o Nazismo foi dissecado nessa reconstrução e impedido de se fortalecer novamente. O Haiti tenta se reconstruir após o terremoto. Assim como New Orleans, nos EUA, após o furacão. Mas o que teria o Brasil para reconstruir, ao menos em termos políticos? Há alguma coisa que valha a pena ser reconstruída dos tempos passados de nossa política? Os exemplos políticos do passado recente no Brasil ajudam a pensar nisso. Temos Getúlio Vargas, nosso Déspota Esclarecido, que era o pai dos pobres que prendia os que tivessem a audácia de discordar dele. Temos o Lacerda, o pai do “Rouba mas faz”, adotado em seguida por Paulo Maluf. Temos ACM, o capo de uma das famílias políticas mais bem sucedidas do Brasil, que conseguiu espalhar o nome da família por toda a Bahia, dando a impressão de que o Estado foi fundado por ele, mais ou menos como Lula tenta fazer hoje, em termos gerais de História do Brasil. Temos os Generais do Golpe de 64, que criaram a democracia sem direitos do regime militar, um regime que torturou e matou com ferocidade durante mais de uma década (o regime durou mais que isso, sei muito bem. As torturas e prisões políticas não. Não adianta esbravejar, basta analisar a linha do tempo dessa história). Lutando contra o regime militar, grupos de esquerda que também, por sua vez, cometeram sucessivos erros de estratégia para disseminar sua luta e foram esmagados. Não pelos militares, mas pela falta de apoio popular, já que o povo pensava que era melhor ser dominado por generais de direita do que por generais comunistas. Depois, em 1988, quando finalmente a democracia quis se reerguer, o bastião dessa “renovação” era justamente um fantoche raivoso, herdeiro de um tipo de política dado a assassinatos em plena Casa do Povo. Não há nada que ser renovado aí. Nem a ser reconstruído. O desejo de renovar remete ao desejo de repetir o que já foi feito. Não precisamos disso. Precisamos construir. Somos um povo, uma etnia em busca de construir uma nação que nunca fomos. Precisamos isso. Desejamos isso ardentemente, ainda que nem saibamos disso. Precisamos construir uma nação.
Escrito por Alessandro DelArco às 10h12
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Sobre Meninas Dentuças, gorduchas e filósofos mal-humorados
Pessoal: O texto abaixo ficou bastante confuso, na minha opinião. Ainda não consegui deglutir bem a babaquice que o originou, mas não queria deixar o assunto desaparecer, então vou publicar do jeito que está e volto a ele quando esta enxaqueca #%@ passar. Ah, o texto do cara está no link abaixo: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=578JDB009
Muito tempo atrás eu li um livro chamado “Para Ler o Pato Donald”, de Ariel Dorfman e Armand Mattelart. O livro fazia um apanhado de características dos quadrinhos da Disney e transformava isso tudo em uma peça de propaganda imperialista. Entre os argumentos estavam o Tio Patinhas como símbolo do Capitalista Selvagem, ou dos EUA, já que o nome do tio Patinhas em Inglês, Uncle Scrooge, remete à sigla do país “US”. Além disso, diversos outros argumentos apareciam: a falta de vínculos familiares dos personagens, o caráter ignorante, preguiçoso, incompetente e inculto do Donald, vivendo sempre à sombra do tio rico e dependente dele (seria, provavelmente, um retrato do terceiro mundo...). O ano era 1971 e muitas dessas idéias foram aceitas com bastante entusiasmo pelos sul-americanos, que viviam, em sua maioria, sob regimes militares de direita. Assim, qualquer texto “de resistência” era aceito sem muita análise crítica. E as grandes contradições ou mesmo manipulações de quadrinhos e textos dos gibis utilizados como exemplos de temática imperialista foram deixados de lado. Quando li o texto, em 1992, ele ainda exercia grande influência no meio acadêmico, sobretudo entre os estudantes de comunicação. Naquela época eu já achava o livro de Dorfman e Mattelart bastante superficial. Mas como eles criticavam os quadrinhos Disney, dos quais eu nunca fui grande fã – mais pela qualidade sofrível de boa parte das histórias dos gibis do que pelo seu caráter manipulador. É fato que eu adorava as histórias de aventura dos patos – as Duck Tales – e também as histórias do Superpato – que mostravam um Donald atlético, esperto e corajoso. Gostava também do Zé Carioca, esse símbolo do brasileiro perigoso, malandro, avesso a trabalho, etc. Mas eu achava que, com o passar do tempo, esse tipo de leitura cairia por terra e ninguém mais falaria no assunto, de pura vergonha de já ter aceitado tamanha bobagem sem nem mesmo parar para pensar. Mas vivemos realmente em tempos perigosos. Ou, como diriam alguns, em tempos realmente chatos. Descobri, dia desses, um texto semelhante ao descrito acima, mas sobre a Turma da Mônica. O autor do texto, Dioclécio Luz, considera os personagens da turminha extremamente perigosos para o desenvolvimento das crianças brasileiras. Diz que os personagens são desprovidos de personalidade; tudo o que têm são clichês negativos e desvios de conduta. Ele se referia, evidentemente, à gula da Magali, à falta de banho do Cascão, à língua “plesa” do Cebolinha, e claro, à força descomunal da Mônica. Esta, inclusive, é a grande vítima do texto, caracterizada como uma praticante de “bulling” de marca maior (bulling é aquela história do grandalhão que sacaneia os mais fracos e indefesos, como alguns tipos que tiveram o azar de cruzar meu caminho...). Segundo este autor, tudo, nas histórias da Mônica, se resolve na base da porrada e de outros tipos de violência. Também diz que ninguém na turma é conhecido por ser criativo, inteligente, sensível, etc. Falou também que a Magali é uma tática para vender bolachinhas e chocolates, pois come pra caramba e não engorda. E que o Chico Bento é uma “visão burguesa – distante e elitista – do campesinato”. Está Ipsis literis , porque não domino o vocabulário bolchevique utilizado pelo autor e, portanto, não encontraria tradução em português corrente. No final, ele compara a Turma da Mônica com personagens “engajados” como a Mafalda do Quino, Calvin e Haroldo do Bill Waterson, Rê Bordosa do Angeli, Níquel Náusea do Gonzáles, entre outros. Diz que estes têm personalidade e tem uma visão revolucionária do mundo, procurando transformá-lo e não sendo conservadores como são os personagens do Maurício de Sousa. A meliante desalmalda e sua arma de detruição de crianças indefesas... Não acho que eu precise defender o Maurício. Ele já é crescidinho, é um empresário de sucesso, um desenhista talentoso e acho que se ele quisesse rebater o texto, o faria sem precisar de minha ajuda. Mas não posso esconder que fiquei com um gosto amargo na boca, após ler o tal texto. Primeiro porque a argumentação do cara é um lixo, típico de quem faz um morro com um formigueiro e isso só fica engraçado no filme “O Massacre da Serra Elétrica”. É argumentação característica de quem nunca lê histórias em quadrinhos em geral e Turma da Mônica em especial. Aí, o que ele faz? Compara quadrinhos essencialmente adultos com quadrinhos infantis. Alguém aí consegue imaginar a Rê Bordosa convivendo com a Mônica e o Cebolinha? E, para piorar, ele demonstra o quão está defasado em suas preferências, citando heróis que se aposentaram há mais de 20 anos. Fica muito complicado conversar desse jeito sem apelar, não é? Somente alguém que nunca lê gibi é capaz de pensar que a turminha, como a gente os chamava, são má influência. Mas acho que eles não têm tempo para ler esse tipo de leitura fútil, não é mesmo? Perdem tempo demais lendo “O Manifesto do Partido Comunista”, eu acho... Esse tipo de crítica é bastante irritante. Não se pode fazer sucesso neztepaíz sem ser acusado de ser alienado ou ligado à máquina ou ao sistema capitalista. Porque me parece que a crítica ao empresário Maurício de Sousa está presente no texto de maneira muito forte. É intrigante como nada vendável o possa ser simplesmente porque agrada e agrade porque tenha qualidade. Há que se ter uma conspiração, uma trama diabólica por trás de tudo. Como diria Macunaíma, dá uma preguiça... Quando eu comecei a escrever este texto, minha intenção era solapar, parágrafo por parágrafo o que o Sr. Dioclécio escreveu. Mas agora eu percebo que é inútil. Não se combate este tipo de ignorância em um texto tão pequeno, mesmo que esta ignorância tenha sido suficiente para fazê-lo escrever um texto apenas um pouco maior que este e muito mais cheio de bobagens. Porque, além da ignorância, o que justifica seu texto é um preconceito descomunal. E o preconceito não se combate com outra coisa senão curando-se a ignorância (voltarei a este tema – o preconceito – brevemente). Então decidi que ao invés de rebater argumentos no estilo vermelho-azul, muito comum nos blogs por aí, prefiro apenas deixar uma sugestão: passe em uma banca de jornais, compre alguns gibis (nem precisa ser da Monica), deixe o preconceito e a militância de esquerda guardados no armário e divirta-se um pouco com uma das poucas coisas que, num mundo cheio de BBB’s, Helenas, pegadinhas picantes e outras porcarias mais, ainda pode proporcionar momentos do mais sincero e descompromissado divertimento. E só!
Escrito por Alessandro DelArco às 16h17
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A Perda Inestimável de José Mindlin

“É uma questão de exemplo e de ter o cuidado de falar de leitura como fonte de prazer e não como uma obrigação”
Faleceu, no último domingo, um dos meus maiores ídolos: José Mindlin, empresário tão ligado ao mundo da cultura e da literatura que seu “título”, adotado por toda a imprensa, era o de Bibliófilo. Pouco sei de sua história pessoal, exceto que foi um grande homem. Íntegro, fiel à justiça e devotado às artes em geral e à literatura em especial. Lutou com Inteligência contra os desmandos da ditadura, mantendo seus ideais democráticos até mesmo quando trabalhou para os ditadores. Coisa rara no Brasil, onde a luta, em geral, é apenas sinônimo de baderna. Mas o que realmente me encantava na figura de Mindlin era a paixão com que ele se dedicava aos livros. Ele tratava, como poucos, os livros com o devido respeito. Seja a figura física do livro, a edição, a capa, a beleza das letras e dos tipos escolhidos, apreciava a costura dos livros – tem gente que nem sabe que certos livros são costurados –, a lombada dos capa-dura, o farfalhar dos brochuras… seja a essência de cada livro que passava por suas mãos. Não perdia uma única oportunidade de vê-lo falando. Sempre aprendia muito com suas palavras alegres e otimistas. É o mais próximo que consigo compreender como um herói. Um herói de lutas perdidas: criar, no brasileiro, a fome pela leitura. Ele conhecia todos os meios, todos eles simples e factíveis: pais leitores criam filhos leitores, filhos leitores também estimulam os pais, professores leitores estimulam alunos e colegas a ler. A exceção dos professores, que não lêem porque não tem tempo ou dinheiro, ou nenhum dos dois, o restante é facilmente implementável. Ele pregava também o prazer da leitura: a criança e o adolescente têm que ter prazer na leitura. O prazer levaria ao hábito que, por sua vez, levaria a adultos que lêem de tudo: de Paulo Coelho a Camões. E o mundo de descobertas que se faria então seria incomensurável. Sinto-me verdadeiramente triste com sua partida. É como a partida de um velho amigo que não cheguei a conhecer. Sentirei sua falta, a literatura sentirá sua falta. E o Brasil também deveria sentir, mas pouco vai notar sua ausência, infelizmente. Paro por aqui, porque uma homenagem a um homem tão grande tem que ser singela. E também porque minha sincera tristeza não me permite.
Escrito por Alessandro DelArco às 17h24
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Sobre Amor e Paixão - texto autoral
Sinto arrepios toda vez que ouço alguém comentando sobre “questões de amor e ódio”. Fica parecendo que um sentimento se opõe ao outro. E, ao menos até onde eu vejo, não é nada disso. Ódio, muito embora a maioria dos dicionários não registre isso, se opõe à paixão. O amor, na verdade, está acima disso. Paixão e ódio são sentimentos que carregam sensações e emoções fortes e, de certa forma, muito parecidas. Uma das semelhanças entre eles é serem bastante passageiros. Nada mais volátil que uma paixão arrebatadora. Nada menos duradouro que o ódio cego. O que não quer dizer que estes sentimentos necessariamente dissolvam-se no ar facilmente. Ambos, se alimentados, durarão indefinidamente. As paixões se cultivam. Em pensamentos de carinho, em sonhos libidinosos e em sensações e esperanças que nem sempre se concretizam. Namoram-se os pensamentos a respeito destas paixões e deliciam-se com as sensações de prazer que causam esses devaneios. Na paixão há um bocado de espaço para o sofrimento, mas geralmente o que prevalece é a alegria. Mas a paixão é um bocado incompreendida. Até os mais valorosos poetas a confundem grotescamente com o amor. Vinicius de Moraes dizia que o amor é chama, portanto não é eterno. Digo que este é o retrato fiel da paixão, mas não do amor. O amor é superior à paixão. O amor não precisa ser cultivado. Não, ao menos, da maneira como a paixão. O que acontece com o amor não cultivado é que ele fica esquecido em algum lugar do coração, sempre pronto a acordar. A paixão morre. Aquele que ama, ama mesmo sem paixão. É inegável que a paixão pode levar ao amor. E é possível amar diversas pessoas ao mesmo tempo. Mas nunca do mesmo jeito. Já a paixão é sempre parecida. E se a paixão consome, o amor alimenta. O amor é uma dádiva. Uma benção. A paixão nem sempre o é. E nem sempre merece ser exposta ao mundo. Mas o amor sim. O amor não deve ficar escondido. A benção do amor reflete tanto a pessoa que ama quanto a que é amada. Assim, quem é amado deve saber disso, mesmo que o amor não seja recíproco. Não é bom que o amor fique escondido, irrevelado. É como a parábola onde o trabalhador que ganha um “talento” de seu senhor e o enterra no campo, com medo de perdê-lo. O senhor, vendo isso, castiga o trabalhador. Quem é amado tem o direito de saber disso, pois saber-se amado é saber-se vivo, saber-se querido e, no fim, perceber que nunca se está sozinho. Quem ama deve revelar-se, para que seu amor, ainda que de forma imperceptível, possa transformar o mundo. E para mostrar que é sempre bom amar.
Escrito por Alessandro DelArco às 16h22
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Sobre Críticos e Críticas
Quem é apaixonado por literatura, como eu, às vezes se arrisca a ler alguma resenha ou crítica sobre algum livro. Às vezes, você esbarra em uma crítica mesmo quando não quer. E freqüentemente fica horrorizado com elas. Particularmente, não gosto de críticas jornalísticas, sobretudo as que são escritas por jornalistas brasileiros. Os críticos de cinema e literatura brasileiros são sentimentais demais, subjetivos demais e são dados a confundir o escritor do livro ou diretor do filme com as pessoas que estes escritores e diretores são. Além disso, é bastante comum encontrarmos simplesmente as impressões pessoais e sensações dos críticos nos textos. E nenhum dado técnico complementar, que nos ajude – nós, pobres mortais – a entender porque determinado livro ou filme é tão ruim. Porque se for pra ler em uma crítica que simplesmente repita o que eu entendi, senti e analisei nas obras, pra que ler a crítica? De todas, as críticas literárias e cinematográficas da Veja são as piores. É bem comum eles contarem o final do filme ou revelarem alguma parte do livro que, convenhamos, seria muito mais interessante se descobríssemos sozinhos no texto. Mais comum ainda é os autores e diretores serem tratados sem o mínimo de respeito pelos jornalistas. E, neste caso, refiro-me tanto às pessoas dos autores e diretores quanto suas obras. Por causa disso, sempre que leio uma crítica na Veja eu o faço com um pé atrás. E nunca, jamais leio uma de cinema antes de ver o filme. Mas, falando sério, nunca mudei de opinião com relação a uma obra depois de ler a Veja ou qualquer outra revista ou jornais. E porque isso me preocupa, afinal? Porque alguns dos problemas que temos com a quantidade de leitores de qualidade no Brasil passam justamente pelo tipo de crítica literária que se faz. Nossa crítica tem uma verdadeira aversão pela leitura desengajada. Eles morrem de vergonha quando flagram um escritor brasileiro escrevendo sobre nada e fazendo sucesso. Nada de filosofia, nada de crítica social, nada de... literatura. Mas livros vendendo a rodo. Eles acham uma audácia que um escritor brasileiro escreva um livro simplesmente pelo prazer de colocar no papel uma história (que às vezes nem é tão original assim), sem se preocupar em colocar alguma figura semiótica no texto. Se o infeliz ainda vender mais que cinco mil cópias do livro, então, será ridicularizado em praça pública e será tratado como medíocre, prepotente (olha a prepotência aqui de novo!) e, se não bastar, como farsa. Somente no Brasil escritores de livros “consumíveis” são tratados com tanto desprezo. Nos EUA e Europa, onde são singelamente conhecidos como escritores de Best-sellers, são tratados como pessoas importantes no cenário cultural. E escrevem livros consumíveis, livros para LER. E eles lêem muito, esses americanos e europeus. Muito mais do que nós e em proporções astronômicas. E nenhum desses livros possuem estudos aprofundados de metafísica ou sociologia comparada. Eles deixam isso aos seus colegas acadêmicos (a não ser que vá render uma boa história!). Mas isso não é possível no Brasil. E a Veja desta semana, a edição 2121 de julho de 2009, mais precisamente na coluna de Diogo Mainardi, deixa isso bem claro. Em sua coluna, Mainardi se utiliza de uma afirmação supostamente feita pela escritora irlandesa Edna O’brien para criticar Chico Buarque. E o que ele critica, através da escritora? Que Chico Buarque é uma fraude cheia de empáfia e de desconhecimento literário, dado a enganar facilmente a platéia – e, possivelmente, os leitores. O “Cantinho do Suicídio” – como eu chamo a famigerada e sempre mal-humorada coluna da Veja – não é o melhor lugar do mundo para ficar bem informado, pois trata-se de uma coluna de opinião, não de informação. Mas é bastante lida. A coluna não menciona, por exemplo, que Chico Buarque é reverenciado porque é escritor, mas porque é um dos maiores e mais queridos compositores que esta terra já teve a felicidade de produzir. Chico, o compositor, é elegante, empolgante. Já Chico, o escritor, não tem o mesmo brilho do compositor. Seus livros não têm o peso lírico ou o fascínio de suas músicas. Paciência. Chico, ao contrário de Paulo Coelho, não parece ter pretensão de ser reconhecido como Imortal na ABL. Tem só a pretensão de ser lido pelo mesmo público, talvez, que ouve suas músicas. E, ao que parece, é isso que incomoda Diogo Mainardi. O texto não parece querer destruir apenas os livros que Chico Buarque tenha escrito, embora isso aconteça. Procura também destruir o homem que o escreveu. É subjetivo, emocional e constrange o leitor de “Leite Derramado” e “Budapeste”, mais do que constrange o próprio autor. E isso, esse constrangimento, destrói leitores, sobretudo os que estão em formação. Quem já não sentiu vergonha de dizer que lia Harry Potter ou Crepúsculo? Mesmo quem nunca leu mais do que um livro da Coleção Vagalume torce o nariz quando ouve que você lê e gosta desse tipo de livro. E daí que os livros de Chico Buarque não são bons, do ponto de vista da literatura? Tem gente lendo? Ótimo! Melhor que leiam mesmo, quaisquer livros. Se há uma coisa boa nos livros é que eles, fechados, não podem causar mal a ninguém. Se você não gosta, feche-o, ignore-o. Ou trate-o como o que ele é, uma história. Mas ainda assim, sempre vou achar que um livro, depois de lido, é melhor do que o que não foi lido. Não importa se foi “Dom Casmurro” ou “O Caçador de Pipas”. O importante é ter gente lendo. E o leitor de bobagens de hoje é quase sempre o leitor de obras importantes de amanhã. Mas para partir de “Budapeste” até chegar a “Memórias Póstumas de Brás Cubas” há um longo caminho a ser percorrido. E ninguém irá percorrer se não aprender como se faz. E críticas como as da colunas de Mainardi não ajudam em nada.
Escrito por Alessandro DelArco às 01h35
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E agora o assunto é esporte. Eu acho
Estava lendo, outro dia, uma revista dessas especializadas em corridas. Não sobre corridas de carro. Corridas a pé. Sabe aquelas que nos anos 80 costumavam chamar de “Cooper”, por causa de um médico americano; depois nos anos 90 foi praticamente proibida por todos os médicos e preparadores físicos do mundo porque podia causar distensões, contusões, descolamentos de retina, câncer, catarata, febre alta e dor, essas coisas simples? Aí, sabe-se Deus porque, na virada do milênio ganhou status de moda e todo mundo resolver dizer que corria. E choveram produtos consumíveis sobre o tema, como revistas, programas de TV, livros, DVD’s e tudo o que o seu rico dinheirinho possa comprar com gosto. E aí se descobriu um mundo místico envolvendo as corridas: Técnicas apuradas, tênis pra lá de especiais, corredores barrigudos que bradam aos quatro cantos que correm desde tenra idade. Isso sem contar que, depois dessa explosão, a corrida nunca mais foi a mesma. Se antes, na época do Dr. Cooper, o que bastava era um tênis e roupas confortáveis para que você pudesse correr três corridas de meia hora por semana, agora você, para um pequeno treino de 10 minutos (ah, é, tem isso também: ninguém “corre”, todo mundo treina ou compete...) você precisa de um cronômetro de precisão, um medidor de batimentos cardíacos, um GPS para medir o trajeto, um tênis com solado de gelatina balística, camiseta dry-fit fluorescente, um treinador que já tenha treinado no mínimo 3 campeões mundiais da meia maratona de NY e, finalmente, um plano de corridas que abranja no mínimo 3 anos com cada segundo, ou melhor, quilômetro, ou melhor K (porque a nova geração de corredores não corre tempo nem quilômetros, mas “K’s”, seja lá que unidade de medida que seja essa.). ou você não será digno de ser chamado corredor. Interessante como estes produtos, sobretudo as revistas, conseguem transformar um tema tão simples em algo quase transcendental. Lê-las é imaginar que a corrida pode levá-lo a um patamar mais profundo da existência humana. Que você pode superar medos, traumas e problemas psicológicos através dos treinos e das provas de 1K, 5K e outrosK. Francamente, nada contra corridas. Eu mesmo acho um jeito muito legal de manter a forma, como discutirei em outro post. Mas será que era preciso criar todo esse circo? É útil? Necessário? Será que sem eles as pessoas não iriam correr? Quero dizer, treinar? É o mal desse começo de século. Nada pode ser simples, nada pode ser fácil. Muito menos barato. Você tem que entender a diferença entre pisada pronada e supinada. Precisa também entender que uma corridinha não é o suficiente, você precisa de “tiros” “corrida leve”, “corrida moderada”, “grupos de apoio” e, claro, “ideais”. Você precisa saber o que quer, aonde quer chegar, marcar tempo, distâncias, ter uma agenda rigorosa de treinos e provas, mudar sempre o seu percurso senão os deuses malvados da corrida irão tornar você um ser humano obeso e, talvez, menos neurótico. Não ria. Li tudo isso que está acima em uma única edição. Não foi a única que li, mas olha só a quantidade de informação execrável você consegue armazenar nela. É uma chatice sem fim. Como diria Macunaíma: ai que preguiça... É claro que não tem só porcaria. Tem muita coisa boa, como dicas de alongamento, algumas piadas auto-imunes e alguns macetes interessantes para quem quer correr. Mas você termina a leitura simplesmente achando que não faz parte da turma. E não será parte até que siga a risca todos os mandamentos.
Escrito por Alessandro DelArco às 00h39
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