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Lula Presidente: Tê-lo ou não tê-lo
Segue abaixo coluna de hoje de Elio Gaspari na Folha de São Paulo
São Paulo, 19 de março de 2008
ELIO GASPARI
Lula é o mesmo, mas o cenário é outro
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Araraquara teve a conferência de Jean-Paul Sartre em 1960 e o discurso de Nosso Guia em 2008
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BENDITA A CIDADE que ganha fama com uma palestra. Foi isso que aconteceu com Araraquara depois que o filósofo francês Jean-Paul Sartre terminou sua conferência no auditório da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras, em setembro de 1960. Daí em diante ela se tornou conhecida como "a Conferência de Araraquara". Era uma época em que as pessoas iam a esses eventos de terno e gravata. Sartre tratou de arcanas questões filosóficas e teve Jorge Amado na mesa, Fernando e Ruth Cardoso, mais Antonio Candido e Gilda de Mello e Souza na primeira fila. Há uma semana, discursando em Araraquara, na inauguração da escola que ganhou o nome da professora Gilda, morta em dezembro de 2005, Nosso Guia fez um discurso que merece atenção. Foi um improviso, menor que a conferência de Sartre, mas ainda assim longo. Tem seis vezes o tamanho deste artigo e, à primeira vista, pode ser confundido com mais um Opus Lula. Nosso Guia trocou de cenário. Ele cavalga o desempenho da economia e os avanços sociais ocorridos durante seu reinado. Não formula idéias novas, apenas arruma velhos esplendores. Lula faz isso de uma forma que seus adversários devem pensar melhor antes de continuar com uma oposição de frases feitas e CPIs para alimentar noticiário. Alguns exemplos: "Todo o sacrifício que nós fizemos permitiu que a gente pudesse estar vivendo o momento que estamos vivendo hoje. (...) Hoje temos quase 200 bilhões de dólares de reservas, não devemos nada ao FMI, não devemos nada ao Clube de Paris e não devemos nada a ninguém." "Aqui no Brasil pobre não tinha acesso a banco. Aliás, os bancos tinham desaprendido a atender pobre. (...) O que nós fizemos? Nós resolvemos fazer crédito para o povo pobre. (...) Criamos o crédito consignado. (...) Eu acho que a gente colocar dinheiro na mão do pobre é investimento neste país." "Quando eu tomei posse a indústria automobilística me procurou dizendo: "Nós estamos quebrados". (...) E ontem eu recebi uma carta: eles saíram de 2,2 milhões de carros e estão prometendo produzir 4 milhões de carros em 2009. Qual foi o milagre? O milagre foi uma coisa que a gente vinha dizendo há 20 anos: com 24 meses de prestação, só pode comprar carro o setor da classe média. Se vocês quiserem que o pobre compre um carro, aumentem o número de prestações." "Noventa e seis por cento dos acordos feitos pelos sindicatos são acordos feitos acima da inflação, com aumento real de salário." "Neste ano, nós vamos ter a primeira turma formada pelo ProUni. São 60 mil jovens que tiraram o diploma pelo ProUni e 40% desses são negros e negras." Nosso Guia teve até o seu "momento Obama": "O grande desafio (...) é acreditar que a gente pode". Não há um novo Lula, o que há é uma nova conjuntura. Sua falação pode ser repetitiva, mas tem duas características. Primeiro, ele não está enrolando. Depois, leva à rua uma agenda de progresso e otimismo, deixando à oposição o penoso exercício do mau humor. Se uma mentira, repetida mil vezes, acaba virando verdade, o que dizer de uma verdade repetida mil vezes? O Brasil bem pensante, que até hoje procura entender a conferência de Sartre, precisa ler o discurso de Araraquara. Está na internet, basta passar no Google "discurso lula araraquara gilda". Em 1960, aos 15 anos, Nosso Guia corria atrás de seu único diploma. O do Senai.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1903200807.htm
Minhas Palavras
Não há como negar que temos vivido bons tempos para o Brasil. Do mesmo modo também não se pode simplesmente atribuir todo o crédito ao governo atual. Goste-se ou não de Fernando Henrique, sua passagem pelo Executivo foi, sem sombra de dúvida, indispensável para o Brasil. A reportagem acima reflete bem os pontos principais deste governo. Um governo de esquerda que se dá bem toda vez que pratica politicas de direita: apoio à industria, política econômica sensata e etc.
Por que então, afinal de contas, eu não consigo me sentir tranquilo sendo governado por Lula? Vários motivos, mas vou apontar apenas os três que eu considero principais.
O primeiro e mais profundo desapontamento que Lula me causou foi referente à educação. Exceto pelos discutíveis programas de cotas em universidades públicas, nada de concreto foi feito para ligar com a falta de educação formal do povo brasileiro. Nenhum único programa federal para salvar o falido sistema educacional de ensino fundamental e médio foi realizado nestes últimos 5 anos. Ah, FHC também não fez? e daí? Esperava tal coisa de alguém como Lula, que tanto gosta de falar em seu passado sofrido, não de alguém para quem a educação não foi privilégio, mas obrigação e meio de vida, como FHC. O Brasil cresce hoje, mas seu futuro está comprometido porque pode nos faltar, no futuro, uma carga intelectual e cultural para manter este crescimento. De certo modo, isso acontece hoje nas áreas de engenharia, onde sobra trabalho mas faltam pessoas qualificadas para assumirem os postos criados. E todo o processo de habilitação é longo e cansativo, tanto para quem foi massacrado pelos anos de ensino fundamental quanto para os patrões, que precisam de resultados rápidos. Já disse antes que "Um país se faz com homens e livros", como dizia sabiamente Monteiro Lobato. E concordo com ele. Um homem sem curso superior pode até se tornar presidente da república e fazer seu projeto dar certo. Mas um país sem ensino eficiente jamais terá projeto de nação concluído. Estará fadado ao "país de amanhã". Como disse, Lula nada faz para mudar essa situação.
O segundo ponto é o desprezo que Lula demonstra pela classe média. Quando era candidato, éramos tratados como "Classe Média". Depois de eleito, o presidente passou a nos tratar como "Elite" ou "Burgueses". Pior, muitas vezes somos taxados de "ricos". Se ao menos o termo Elite não viesse tão cercado de preconceito e sentido negativo, eu até acataria isso como elogio. Afinal, tenho dedicado meus melhores anos de vida estudando, lendo, trabalhando, me aperfeiçoando e pagando todos e quaisquer impostos que sou obrigado a pagar. Às vezes até em duplicata, como no caso da previdência social, assistência médica e IPVA. E, embora carregue proporcionalmente o país nas costas, o presidente prefere não entender a minha importância. Eu como classe média, bem entendido. Como massa crítica, não como a massa amórfica e acerebrada que ele gosta de agradar. Talvez até seja isso que mete medo. Todas as pessoas que realmente importam estão nesse miolo crítico: formadores de opinião, professores, pensadores, pagadores de impostos. Nada bom deixar essa gente sossegada. Sabe-se lá o que poderiam aprontar. Mas como esse tratamento mudou com o tempo, me sinto enganado por ele.
O último ponto que queria discutir é essa tolerância cega que Lula tem pelos nossos vizinhos aloprados. Desde o caso da Petrobrás na Bolívia que não engulo os elogios rasgados de Lula a Chavez, Morales e companhia. Beira o ridículo. Neste ponto, concordo fortemente com a premissa de Reinaldo Azevedo que diz que o Brasil não tolera ser humilhado por países mais avançados, mas adora humilhação vinda de nossos parceiros mais insignificantes que nós. Esse tipo de abordagem preocupa pois nos mantém próximos demais daqueles que destroem em seus países tudo aquilo que estamos lutando para construir no Brasil, como estabilidade político-econômica, liberdade de expressão e respeito dos países de primeiro mundo. No caso de Morales Lula expõe também sua faceta preconceituosa quando diz que "somente ele pode governar a Bolívia, não um loiro de olhos azuis", como se cor da pele, cabelos e olhos fosse algum sintoma de cidadania e competência.
Não há dúvidas de que o país está crescendo. E esse processo deve continuar por algum tempo. Faço votos de que Lula consiga realmente me desapontar de novo, passando por cima de tudo o que escrevi e fazendo o que eu esperava antes. Seria a melhor decepção que eu poderia ter.
Escrito por Alessandro DelArco às 18h08
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