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Comédias e Profecias
Sou conhecido por não dar bola a livros de auto-ajuda. Em geral, não só evito esses livros como também não perco uma oportunidade de ridicularizá-los. O que não seria tarefa difícil não fosse a necessidade moral que tenho de só criticar algo após lê-lo. Foi assim com Paulo Coelho, por exemplo, o guru das multidões. E agora tenho nova oportunidade de praticar meu ceticismo espiritual após ter lido um grande marco das histórias de auto-ajuda: "A Profecia Celestina".
Este livro, que já foi muito famoso na primeira metade dos anos noventa, hoje é um ilustre desconhecido fora do circuito "Filósofos da Nova Era". Pessoas ligadas ao neo-esoterismo ainda o lêem e certamente ainda devem gostar muito das profecias recheadas de nonsense.
Mas não foi o meu caso. Ainda que não esperasse grande coisa do livro, o que encontrei me deixou ainda mais estarrecido. Nada parecido com as histórias simples com moral que, por exemplo, Paulo Coelho conta. A história é praticamente inexistente, passada a maior parte do tempo em um Peru onde todos falam inglês. Tudo gira em torno de 3 premissas básicas: a) há um tal Manuscrito misterioso que contém várias visões que iriam mudar o mundo; 2) Estas visões são apresentadas ao protagonista sem nome em forma de diálogos com diversos personagens que invariavelmente têm a mesma forma de se expressar. Seja ele homem ou mulher, mas a pessoa que fala ao protagonista sempre usa um inglês técnico fabuloso e o mesmo "timbre" de catequisação por perguntas e respostas. Ah, e até mesmo os peruanos mais retintos têm um vocabulário riquíssimo para explicar as nove Visões. 3) Há um complô da Igreja contra o tal Manuscrito (sempre em letra maiúscula), pois a Igreja tem ódio dos esotéricos.
Quem ler ao menos a contra-capa pode ter a impressão de que está diante de uma verdadeira aventura com "moral da história". Mas nem mesmo isso acontece. A "aventura" é apenas um apanhado de situações burlescas que o autor colocou lá no livro simplesmente para ir, pouco a pouco, construir suas teses. Assim, se utilizando de um professor de história ele diz que nossa persepção de história mudou. Uma cientista faz uma alusão à Teoria da Relatividade e da Mecânica Quântica para mostrar que podemos emitir energia e também que podemos forçar coincidências a acontecerem se estivermos treinados o suficiente. O autor cria um caso de amor para o protagonista simplesmente para que a moça pegasse no pé dele para, assim, o autor discorrer sobre o nosso vício sobre outras pessoas e também como um relacionamento pode ser prejudicial à sua evolução. Neste último ponto eu até concordo com ele, embora tenha teorias diferentes sobre o assunto .
Claro que em uma simplificação como a que estou fazendo poderia transparecer que eu não entendi o que li. Na verdade, uma pessoa que tenha gostado do livro vai ter certeza de que não entendi. Ou dirá que eu não estou preparado para ler algo dessa magnitude espiritual. Como diz o lema da ProVida: quando você estiver preparado, uma força maior o levará à ProVida... Em minha defesa posso simplesmente dizer que prefiro nem me dar ao trabalho de responder a esse tipo de acusação. Afinal, não estou criticando a opção espiritual de ninguém, mas tão-somente falando algo de um livro pretensioso que li. E este, como literatura, tenho certeza que é fraco. Pensando no livro como guia espiritual, só posso dizer que já li livros muito melhores. E muito menos pretensiosos.
No fim, ficou a sensação de que nada mudou. Uma pena quando se trata de um livro.
Escrito por Alessandro DelArco às 16h38
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