Agora Falando Sério
  Saudades de Tom e Vinícius...

No milênio passado, nos tempos da minha longínqua infância, era possível ligar a TV de sábado a noite e dar de cara com um especial de Vinícius de Moraes na TV. Ao vivo. Tom Jobim não me lembro tanto, ao menos no começo dos anos 80. Lembro do Vinícius. Dele cantando com aquela voz feia algumas das mais belas canções de amor que alguém já foi capaz de produzir. Ele, o copo longo de whisky e um cigarro. Naquela época não era pecado se apresentar na TV fumando e bebendo (Mas ainda bem que agora é...).

E assim acabei lembrando também que, quando eu estava na escola, Carlos Drummond de Andrade ainda compunha poemas. E dava palestras. E era tímido e desengonçado. E eu vi tudo isso, mesmo que pela TV. Vi também o Tom Jobim dando tapa em microfone de repórter impertinente da Globo. Ah, como ele odiava repórter. Era mal educado mesmo. Faria uma festa com os paparazzi.

Tinha também o Quarteto Fantástico dos livros da coleção "Para Gostar de Ler": Fernando Sabino, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade (desse eu já falei). Todos vivos. Eles ainda escreviam nessa época também. Aprendi a gostar mais de Fernando Sabino. Tudo porque o livro "O Homem Nu" caiu nas minhas mãos mais cedo que livros dos outros. Devo muito do meu vício pela leitura a Sabino. No colegial ainda tive o prazer de vê-lo ao vivo, em uma palestra na escola. Absolutamente inesquecível. Poderia ouvir aquele cara contar histórias por duzentos anos e não me cansaria.

Mas antes tinha o Vinícius, cantando o Vento junto com a neta dele, na Arca de Noé. A capa do disco tinha que ser montada pelo freguês, recortando e colando as figuras dos animais na arca. Foi uma verdadeira festa a composição daquela capa. A Casa. A Porta. O Pato...

E porque me lembrei disso tudo? Estava tocando Ligia agora a pouco. Na voz do Tom. E sei lá porque lembrei do Vinícius. Naquela época, nem sabia o que era Bossa Nova. E olha que ela nem era tão nova assim! Mas adorava aquelas notas brincando na música, indo e voltando. Também nem sabia porque que isso era tão bom. Mas era.

E pensar que, quando sentei aqui, queria mesmo era pensar se é possível se dizer fã de alguém sem nem ao menos saber seu nome completo. Quantas vezes foi casado e com quem. Porque eu não faço a menor idéia de quem sejam os homens por tras dos músicos e escritores que mencionei. Nem conheço toda a obra deles. Mas por causa do pouco que conheço, do pouco que ouvi e li, consigo ver o mundo com muito mais interesse. Mesmo que o Rio de Janeiro do Tom não seja mais lá tão bonito quanto ele achava. Mesmo que a casa não seja mais tão engraçada assim. Mesmo que, agora, Paulo Coelho ache que é o mais importante intelectual do Brasil.



Escrito por Alessandro DelArco às 20h30
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