Agora Falando Sério
  Nem Vendo eu acredito.

Segue, no final do texto, o link para o texto de onde tirei toda a minha revolta.

Já escrevi aqui, dias atrás (a julgar pelo tempo que não atualizo o blog, faz muuuuito tempo), sobre os tempos perigosos que vivemos por causa do "politicamente correto". Mas quando o "P.C." encontra com a ignorância generalizada, o negócio se torna bizarro. E ainda mais perigoso.

Para quem não quiser ler o artigo, aí vai o resumo da ópera: um grupo de ativistas "visually challenged" americanos (é, não são mais cegos, mas "visualmente desafiados" - coisas de P.C.) está protestando contra o teor preconceituoso e estereotipado que o filme faz dos cegos, onde, segundo eles, são retratados como monstros e desorientados.

Como diz um amigo que é surdo (ele é surdo mesmo, não "auditivamente desafiado"): antes ser surdo a ouvir esse tipo de bobeira. Mas não deixa de impressionar. Volta e meia aparece um filme que desperta um sentimento irracional na população, geralmente relacionados com filmes com teor religioso. Foi assim com a Última Tentação de Cristo, com A Paixão de Cristo, etc. Eu até sou capaz de entender o sentimento de revolta de uma pessoa religiosa que vê sua religião ser atacada. Ou pensa que ela está sendo atacada. Não que eu concorde com isso. Artistas tem o direito de "obrar" o que quiserem. Se a obra do cidadão me for inconveniente, ele terá o prazer da minha abstenção na audiência. E alguns comentários maldosos, como os que fiz aos Filhos de Francisco, já que sou, na visão do Zezé, parte da elite preconceituosa que não gosta de música sertaneja. Mas isso é outra história. O certo é que a produção artística só pode ser talhada pela moral do próprio autor. Desde que ele não infrinja nenhuma lei, é seu direito. Eu gostando ou não.

A escolha do ver ou não um filme por motivos ideológicos é um exercício pessoal. Eu, particularmente, o exerço com a consciência totalmente limpa. E não encaro isso como preconceito. Se o artista escolheu retratar um tema, por que não posso ter eu o direito de me recusar a vê-la?

O caso é que isso é bem diferente do que está acontecendo com o filme Ensaio Sobre a cegueira. Primeiro porque os que protestam parecem não saber que o filme é uma adaptação de um livro. Um ótimo livro, por sinal. Confesso que, da primeira vez em que ouvi falar dele, achei que se tratava de um tratado médico. "Ensaio" não é um texto acadêmico sobre determinado assunto? É um Saramago de primeira grandeza. E, se me lembro, trata da cegueira sim, tornando as pessoas biologicamente cegas ao longo do texto, mas tudo indica que a verdadeira cegueira a que ele se refere não é a biológica, mas a intelectual. E nem posso dizer religiosa, porque Saramago é ateu, se não me engano. É um verdadeiro "tratado" sobre como as pessoas se sentem perdidas quando as coisas em que elas acreditam desaparecem. E como "pessoas", quando ajuntadas como "multidão", se comportam como seres irracionais. Tão pertinente que até filmes menores, como MIB, se utilizam de situações do livro.

A situação fica crítica, portanto, quando pessoas portadoras de deficiência se revoltam contra um filme que é adaptado de uma história que, no fundo, abre uma discussão muito além do "enxergar" biológico. Eles pensam estar defendendo a causa dos seus semelhantes. Mas, longe disso, acabam dando razão a Saramago.

http://www.omelete.com.br/cine/100015488/Ativistas_cegos_protestam_contra_Ensaio_Sobre_a_Cegueira.aspx

Outras Palavras

Acabei de ler o texto do Guilherme Fiuza, cujo link segue abaixo. Não é sobre cinema, mas também aborda o tema do politicamente correto. Vale a pena espiar
http://guilhermefiuza.com.br/colunaepoca/2008/10/01/a-praga-da-igualdade/



Escrito por Alessandro DelArco às 15h47
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