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Amores de Capitu...
Datas redondas, em geral, causam fascínio nas pessoas. 500 anos de Brasil, ano 2000, e por aí vai. E, agora, da morte de Machado de Assis.
Ele é, sem sombra de dúvida, o maior escritor que o Brasil já teve. E nunca se falou tanto no autor, que não é frequentemente tratado "em público", sendo relegado, geralmente, aos pobres estudantes do ensino médio (oh, pobres estudantes!) e seus pobres professores de literatura.
Foi justo nessa época que li Machado de Assis: O Alienista, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba. Foi um sofrimento só, devo confessar. Por sorte, o Alienista, que é um livro pequeno e extremamente satírico, de leitura fácil. Aí pude partir para "Memórias..." que li para as famigeradas provas de literatura do colégio. Foi em vão, pois não consegui terminá-lo.
Por fim, li Dom Casmurro. E conheci Capitu. Ó doce Capitu. Capitu foi uma das personagens por quem me apaixonei durante minha adolescência. A outra foi Heloísa, vivida por Cláudia Abreu na minissérie "Anos Rebeldes", de 1992. Mas Capitu veio primeiro, me enchendo de paixão com aquele jeito misterioso, sensual e, porque não dizer, malicioso e cruel. Passei anos tentando decifrar o que poderia significar "olhos de ressaca" e também "obliqua e dissimulada" como uma cigana. Amava tanto Capitu que passei a detestar Bentinho e seu ciúme doentio. E não acreditava que ela pudesse tê-lo traído. Achava que era tudo coisa da cabeça daquele bestalhão fraco, ridículo e covarde. Capitu era linda, sensual, forte, contestadora, inteligente e seu principal defeito era justamente amar o tal babão conhecido como Bentinho.
Mas é lógico que não vou aqui fazer uma dissertação sobre a fidelidade da Capitu. Deixo isso aos acadêmicos e literatos. Prefiro simplesmente saborear o que tenho presenciados por esses dias. Por algum motivo que desconheço, a imprensa e outras mídias elegeram justamente Dom Casmurro como o romance perfeito para comemorar Machado de Assis. Por isso, Capitu e Bentinho têm sido muito lembrados em microsséries, reportagens e livros sobre os dois. Ainda que muitas críticas sobre a perda da profundidade da obra tenham sido feitas, acho genial ver tantas referências ao livro e seus personagens em horário nobre. Quero mais é ver todo mundo discutindo Capitu e Bentinho. Quero ver Machado de Assis nas "paradas de sucesso". Quero ver sua obra amada não só pelos eruditos, mas pela moçada que acessa orkut e usa o messenger. Antes isso do que as discussões insípidas das aulas de literatura do colégio. Antes eles se emocionando com "Amor de Capitu", o livro-resumo do Fernando Sabino, do que achando que Machado de Assis não presta. A profundidade, ao meu ver, vem depois. E, afinal, como transmitir toda a emoção dos escritos dele para as telas? Como transmitir toda a carga de negativismo de Bentinho para as telas? Quase impossível.
Ah, e se alguém quiser ver, há uma reportagem divertidíssima no link abaixo sobre a suposta traição de Capitu.Vale a pena dar uma espiada. http://www.abril.com.br/noticia/diversao/no_307200.shtml
Escrito por Alessandro DelArco às 03h40
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