Agora Falando Sério
  Um cartunista chamado Orlandeli

 

Conheci o Orlandeli no longíquo ano de 1986. E na época ele ainda era conhecido como Walmir. Já era um sujeito legal, meio gordo, bom de papo e extremamente engraçado. E acreditem, tinha um topete monstruoso, quase ao estilo Elvis.

Nessa época, o Walmir já gostava de duas coisas: quadrinhos e desenho. Foi ele quem me apresentou à nova safra de gibis da DC, como "O Cavaleiro das Trevas" e "Piada Mortal". E foi ele quem me disse que o tal "V de Vingança" era bom pra caramba. E me emprestou um monte de outros gibis, como "Guerras Secretas", da Marvel, e um livro de charges que haviam sobrevivido ao regime militar, do qual não me lembro o nome mas não consigo esquecer de certas piadas. Ah, e me apresentou a um cartunista brasileiro genial que anda sumido, chamado Luiz Gê. Não pessoalmente, ô orangoman: me apresentou ao TRABALHO do Luiz.

O Walmir já desenhava naquele tempo. Na turma, era bastante admirado por isso. Um traço simples, mesmo quando desenhava de forma clássica, porém bastante eficiente, principalmente quando o negócio era fazer rir. Jeca Bond e um pernilongo que tinha sido afetado pelo Césio de Goiânia eram seus personagens favoritos. E desde essa época ele já buscava sua profissionalização. Fez um curso de desenho pelo IUB, tentou algumas incursões no Salão de Humor de Piracicaba, mandou tiras para algumas revistas famosas naqueles dias. Tenho uma delas aqui comigo: Na seção de cartas da Porrada Special nº 4, na página 31, ele recebe uma chuveirada de água fria do editor Gilberto Firmino sobre a possibilidade de publicar na revista. Esta revista, em especial, mexia com a gente porque trazia vários bons quadrinistas e cartunistas fenomenais, como Calazans (brasileiro) e Horacio Altuna (Argentino). Era dada à experimentação e tinha desenhistas terrivelmente ruins em sua galeria.

Mas foi nessa época também que EU tive a oportunidade de mostrar algo genial a ele: Os quadrinhos do Henfil que o Estadão publicava. E eu tinha uma coleção deles, que foi rapidamente copiada pelo Walmir. E isso foi sensacional, pois o traço do Henfil delineou e inspirou toda a segunda fase do Walmir rumo à profissionalização. Ele abraçou a sugestão do Firmino e estudou exaustivamente aquela forma única que o Henfil tinha de fazer quadrinhos. E deu no que deu. Ele deixou de ser Walmir e passou a ser Orlandeli, com mais de 10 anos de Diario da Região e um (tão sonhado) prêmio no Salão de Humor de Piracicaba.

Com o tempo, perdemos contato. Estudamos em escolas diferentes, eu saí de Rio Preto para fazer faculdade e os encontros têm sido cada vez mais difíceis. Por sorte, posso acompanhar a carreira do Orlandeli através da Internet. Soube que ele perdeu peso e também os cabelos. O primeiro, descuidando ele acha de novo. Já os outros ele não encontra de novo. E os dois cartuns que ilustram esta página são uma prova do quanto o cara anda inspirado. SIC, sua nova série, é um bom exemplo de humor maduro, de quem realmente já chegou lá. No começo eu ainda ficava todo contente quando via seus desenhos, ilustrações ou cartuns em revistas e jornais Brasil afora. Depois perdeu a graça. O Josias de Souza, por exemplo, vive postando ilustrações do cara. E a Superinteressante ou a Mundo Estranho idem. Tem graça ficar mandando mensagem "vi seu desenho em tal lugar!!!!" nessas condições?

Do Jeca Bond para o mundo. É isso aí, meu amigo! Que muitos mais quadrinhos e prêmios venham por aí.



Escrito por Alessandro DelArco às 01h52
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