| |
E agora o assunto é esporte. Eu acho
Estava lendo, outro dia, uma revista dessas especializadas em corridas. Não sobre corridas de carro. Corridas a pé. Sabe aquelas que nos anos 80 costumavam chamar de “Cooper”, por causa de um médico americano; depois nos anos 90 foi praticamente proibida por todos os médicos e preparadores físicos do mundo porque podia causar distensões, contusões, descolamentos de retina, câncer, catarata, febre alta e dor, essas coisas simples? Aí, sabe-se Deus porque, na virada do milênio ganhou status de moda e todo mundo resolver dizer que corria. E choveram produtos consumíveis sobre o tema, como revistas, programas de TV, livros, DVD’s e tudo o que o seu rico dinheirinho possa comprar com gosto. E aí se descobriu um mundo místico envolvendo as corridas: Técnicas apuradas, tênis pra lá de especiais, corredores barrigudos que bradam aos quatro cantos que correm desde tenra idade. Isso sem contar que, depois dessa explosão, a corrida nunca mais foi a mesma. Se antes, na época do Dr. Cooper, o que bastava era um tênis e roupas confortáveis para que você pudesse correr três corridas de meia hora por semana, agora você, para um pequeno treino de 10 minutos (ah, é, tem isso também: ninguém “corre”, todo mundo treina ou compete...) você precisa de um cronômetro de precisão, um medidor de batimentos cardíacos, um GPS para medir o trajeto, um tênis com solado de gelatina balística, camiseta dry-fit fluorescente, um treinador que já tenha treinado no mínimo 3 campeões mundiais da meia maratona de NY e, finalmente, um plano de corridas que abranja no mínimo 3 anos com cada segundo, ou melhor, quilômetro, ou melhor K (porque a nova geração de corredores não corre tempo nem quilômetros, mas “K’s”, seja lá que unidade de medida que seja essa.). ou você não será digno de ser chamado corredor. Interessante como estes produtos, sobretudo as revistas, conseguem transformar um tema tão simples em algo quase transcendental. Lê-las é imaginar que a corrida pode levá-lo a um patamar mais profundo da existência humana. Que você pode superar medos, traumas e problemas psicológicos através dos treinos e das provas de 1K, 5K e outrosK. Francamente, nada contra corridas. Eu mesmo acho um jeito muito legal de manter a forma, como discutirei em outro post. Mas será que era preciso criar todo esse circo? É útil? Necessário? Será que sem eles as pessoas não iriam correr? Quero dizer, treinar? É o mal desse começo de século. Nada pode ser simples, nada pode ser fácil. Muito menos barato. Você tem que entender a diferença entre pisada pronada e supinada. Precisa também entender que uma corridinha não é o suficiente, você precisa de “tiros” “corrida leve”, “corrida moderada”, “grupos de apoio” e, claro, “ideais”. Você precisa saber o que quer, aonde quer chegar, marcar tempo, distâncias, ter uma agenda rigorosa de treinos e provas, mudar sempre o seu percurso senão os deuses malvados da corrida irão tornar você um ser humano obeso e, talvez, menos neurótico. Não ria. Li tudo isso que está acima em uma única edição. Não foi a única que li, mas olha só a quantidade de informação execrável você consegue armazenar nela. É uma chatice sem fim. Como diria Macunaíma: ai que preguiça... É claro que não tem só porcaria. Tem muita coisa boa, como dicas de alongamento, algumas piadas auto-imunes e alguns macetes interessantes para quem quer correr. Mas você termina a leitura simplesmente achando que não faz parte da turma. E não será parte até que siga a risca todos os mandamentos.
Escrito por Alessandro DelArco às 00h39
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|