Agora Falando Sério
  Sobre Críticos e Críticas

Quem é apaixonado por literatura, como eu, às vezes se arrisca a ler alguma resenha ou crítica sobre algum livro. Às vezes, você esbarra em uma crítica mesmo quando não quer. E freqüentemente fica horrorizado com elas.

Particularmente, não gosto de críticas jornalísticas, sobretudo as que são escritas por jornalistas brasileiros. Os críticos de cinema e literatura brasileiros são sentimentais demais, subjetivos demais e são dados a confundir o escritor do livro ou diretor do filme com as pessoas que estes escritores e diretores são. Além disso, é bastante comum encontrarmos simplesmente as impressões pessoais e sensações dos críticos nos textos. E nenhum dado técnico complementar, que nos ajude – nós, pobres mortais – a entender porque determinado livro ou filme é tão ruim. Porque se for pra ler em uma crítica que simplesmente repita o que eu entendi, senti e analisei nas obras, pra que ler a crítica?

De todas, as críticas literárias e cinematográficas da Veja são as piores. É bem comum eles contarem o final do filme ou revelarem alguma parte do livro que, convenhamos, seria muito mais interessante se descobríssemos sozinhos no texto. Mais comum ainda é os autores e diretores serem tratados sem o mínimo de respeito pelos jornalistas. E, neste caso, refiro-me tanto às pessoas dos autores e diretores quanto suas obras. Por causa disso, sempre que leio uma crítica na Veja eu o faço com um pé atrás. E nunca, jamais leio uma de cinema antes de ver o filme.

Mas, falando sério, nunca mudei de opinião com relação a uma obra depois de ler a Veja ou qualquer outra revista ou jornais. E porque isso me preocupa, afinal? Porque alguns dos problemas que temos com a quantidade de leitores de qualidade no Brasil passam justamente pelo tipo de crítica literária que se faz. Nossa crítica tem uma verdadeira aversão pela leitura desengajada. Eles morrem de vergonha quando flagram um escritor brasileiro escrevendo sobre nada e fazendo sucesso. Nada de filosofia, nada de crítica social, nada de... literatura. Mas livros vendendo a rodo. Eles acham uma audácia que um escritor brasileiro escreva um livro simplesmente pelo prazer de colocar no papel uma história (que às vezes nem é tão original assim), sem se preocupar em colocar alguma figura semiótica no texto. Se o infeliz ainda vender mais que cinco mil cópias do livro, então, será ridicularizado em praça pública e será tratado como medíocre, prepotente (olha a prepotência aqui de novo!) e, se não bastar, como farsa.

Somente no Brasil escritores de livros “consumíveis” são tratados com tanto desprezo. Nos EUA e Europa, onde são singelamente conhecidos como escritores de Best-sellers, são tratados como pessoas importantes no cenário cultural. E escrevem livros consumíveis, livros para LER. E eles lêem muito, esses americanos e europeus. Muito mais do que nós e em proporções astronômicas. E nenhum desses livros possuem estudos aprofundados de metafísica ou sociologia comparada. Eles deixam isso aos seus colegas acadêmicos (a não ser que vá render uma boa história!).

Mas isso não é possível no Brasil. E a Veja desta semana, a edição 2121 de julho de 2009, mais precisamente na coluna de Diogo Mainardi, deixa isso bem claro. Em sua coluna, Mainardi se utiliza de uma afirmação supostamente feita pela escritora irlandesa Edna O’brien para criticar Chico Buarque. E o que ele critica, através da escritora? Que Chico Buarque é uma fraude cheia de empáfia e de desconhecimento literário, dado a enganar facilmente a platéia – e, possivelmente, os leitores.

O “Cantinho do Suicídio” – como eu chamo a famigerada e sempre mal-humorada coluna da Veja – não é o melhor lugar do mundo para ficar bem informado, pois trata-se de uma coluna de opinião, não de informação. Mas é bastante lida. A coluna não menciona, por exemplo, que Chico Buarque é reverenciado porque é escritor, mas porque é um dos maiores e mais queridos compositores que esta terra já teve a felicidade de produzir. Chico, o compositor, é elegante, empolgante. Já Chico, o escritor, não tem o mesmo brilho do compositor. Seus livros não têm o peso lírico ou o fascínio de suas músicas. Paciência. Chico, ao contrário de Paulo Coelho, não parece ter pretensão de ser reconhecido como Imortal na ABL. Tem só a pretensão de ser lido pelo mesmo público, talvez, que ouve suas músicas.

E, ao que parece, é isso que incomoda Diogo Mainardi. O texto não parece querer destruir apenas os livros que Chico Buarque tenha escrito, embora isso aconteça. Procura também destruir o homem que o escreveu. É subjetivo, emocional e constrange o leitor de “Leite Derramado” e “Budapeste”, mais do que constrange o próprio autor. E isso, esse constrangimento, destrói leitores, sobretudo os que estão em formação. Quem já não sentiu vergonha de dizer que lia Harry Potter ou Crepúsculo? Mesmo quem nunca leu mais do que um livro da Coleção Vagalume torce o nariz quando ouve que você lê e gosta desse tipo de livro. E daí que os livros de Chico Buarque não são bons, do ponto de vista da literatura? Tem gente lendo? Ótimo! Melhor que leiam mesmo, quaisquer livros. Se há uma coisa boa nos livros é que eles, fechados, não podem causar mal a ninguém. Se você não gosta, feche-o, ignore-o. Ou trate-o como o que ele é, uma história. Mas ainda assim, sempre vou achar que um livro, depois de lido, é melhor do que o que não foi lido. Não importa se foi “Dom Casmurro” ou “O Caçador de Pipas”. O importante é ter gente lendo. E o leitor de bobagens de hoje é quase sempre o leitor de obras importantes de amanhã. Mas para partir de “Budapeste” até chegar a “Memórias Póstumas de Brás Cubas” há um longo caminho a ser percorrido. E ninguém irá percorrer se não aprender como se faz. E críticas como as da colunas de Mainardi não ajudam em nada.



Escrito por Alessandro DelArco às 01h35
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