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Sobre Amor e Paixão - texto autoral
Sinto arrepios toda vez que ouço alguém comentando sobre “questões de amor e ódio”. Fica parecendo que um sentimento se opõe ao outro. E, ao menos até onde eu vejo, não é nada disso. Ódio, muito embora a maioria dos dicionários não registre isso, se opõe à paixão. O amor, na verdade, está acima disso. Paixão e ódio são sentimentos que carregam sensações e emoções fortes e, de certa forma, muito parecidas. Uma das semelhanças entre eles é serem bastante passageiros. Nada mais volátil que uma paixão arrebatadora. Nada menos duradouro que o ódio cego. O que não quer dizer que estes sentimentos necessariamente dissolvam-se no ar facilmente. Ambos, se alimentados, durarão indefinidamente. As paixões se cultivam. Em pensamentos de carinho, em sonhos libidinosos e em sensações e esperanças que nem sempre se concretizam. Namoram-se os pensamentos a respeito destas paixões e deliciam-se com as sensações de prazer que causam esses devaneios. Na paixão há um bocado de espaço para o sofrimento, mas geralmente o que prevalece é a alegria. Mas a paixão é um bocado incompreendida. Até os mais valorosos poetas a confundem grotescamente com o amor. Vinicius de Moraes dizia que o amor é chama, portanto não é eterno. Digo que este é o retrato fiel da paixão, mas não do amor. O amor é superior à paixão. O amor não precisa ser cultivado. Não, ao menos, da maneira como a paixão. O que acontece com o amor não cultivado é que ele fica esquecido em algum lugar do coração, sempre pronto a acordar. A paixão morre. Aquele que ama, ama mesmo sem paixão. É inegável que a paixão pode levar ao amor. E é possível amar diversas pessoas ao mesmo tempo. Mas nunca do mesmo jeito. Já a paixão é sempre parecida. E se a paixão consome, o amor alimenta. O amor é uma dádiva. Uma benção. A paixão nem sempre o é. E nem sempre merece ser exposta ao mundo. Mas o amor sim. O amor não deve ficar escondido. A benção do amor reflete tanto a pessoa que ama quanto a que é amada. Assim, quem é amado deve saber disso, mesmo que o amor não seja recíproco. Não é bom que o amor fique escondido, irrevelado. É como a parábola onde o trabalhador que ganha um “talento” de seu senhor e o enterra no campo, com medo de perdê-lo. O senhor, vendo isso, castiga o trabalhador. Quem é amado tem o direito de saber disso, pois saber-se amado é saber-se vivo, saber-se querido e, no fim, perceber que nunca se está sozinho. Quem ama deve revelar-se, para que seu amor, ainda que de forma imperceptível, possa transformar o mundo. E para mostrar que é sempre bom amar.
Escrito por Alessandro DelArco às 16h22
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